Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva

Enviada em 26/04/2020

Na mitologia grega,o deus da guerra, Ares, é pai dos gêmeos Fobos e Deimos, que, convenientemente, deram origem aos termos ‘‘medo’’ e ‘‘pânico’’, sentimentos que ressurgem, esporadicamente e em grandes proporções, em situações de crise global. No contexto contemporâneo, essencialmente com a pandemia do novo coronavírus, a histeria é um cenário preocupante, essencialmente por agravar o potencial de credibilização de falsas informações que, inclusive, são um significativo óbice para o combate efetivo da doença e uma clara ameaça à saúde pública.

A priori, uma das maneiras que boatos originados de uma histeria podem afetar o combate a epidemias está, quase que ironicamente, documentado no histórico de surtos epidemiológicos do país por jornais e reportagens. Por volta de 2018, diante dos casos de febre amarela no Rio de Janeiro, foi registrado um lastimável massacre de macacos silvestres motivado pelo falso julgamento de que os bichos transmitiam a doença, uma vez que também seriam infectados. Contudo,  ao contrário do pressuposto, os primatas não passam a doença adiante e, na verdade, contribuiriam para a análise do avanço da doença pelo fornecimento de dados estatísticos que beneficiariam a todos, como reafirmado pela própria Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), referência em questões do gênero.

Ademais, outra maneira em que o compartilhamento de informações falsas durante surtos como esse compromete a luta de todos contra o avanço da doença é, precisamente, na credibilização de curas ou profilaxias ‘‘milagrosas’’ que passam uma lastimável e completamente equivocada sensação de segurança aos cidadãos. Conforme noticiado pelo G1, há poucas semanas, uma profissional da saúde teve a licença suspensa por insinuar que um suposto ‘‘soro da imunidade’’ preveniria a contaminação pelo COVID-19 (novo coronavírus em questão). Infelizmente, por não se tratar de um caso isolado, constitui uma imoral e recorrente ameaça à preservação da saúde dos brasileiros.

Desse modo, o pânico, proveniente de crises e surtos como o da febre ou do coronavírus, é consideravelmente recrudescido em virtude de falsos julgamentos e informações e precisa ser prontamente combatido. Em razão disso, é de responsabilidade da Secom (Secretaria de Comunicação), em associação com o Ministério da Saúde e as secretarias municipais, providenciar o desenvolvimento de uma plataforma digital específica para a pandemia em questão (no contexto atual, o COVID-19) que esclareça medidas funcionais e não funcionais de prevenir a doença, retire dúvidas e forneça dados regionais aos cidadãos de modo que, finalmente, seja combatida a principal motivação da histeria coletiva: a desinformação.