Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva
Enviada em 18/05/2020
Na obra “Utopia”, de Thomas More, nota-se uma sociedade perfeita, em que há ausência de conflitos e de problemas. No entanto, ao olhar a realidade, percebe-se um cenário bem distante do livro, ao passo que as epidemias contemporâneas têm fomentado um quadro de histeria coletiva no tecido social. Isso é fruto da omissão do Estado e, também, do interesse econômico em detrimento do valor a vida.
Em primeiro lugar, é inevitável observar que em contextos de epidemias, principalmente no Brasil, as consequências danosas decorrentes da omissão do Estado em promover o bem-estar social são mais visíveis. Dado que apesar da Constituição Federal de 1988, assegurar o direito à moradia adequada e ao saneamento básico, por exemplo, nota-se uma realidade que ilegitima esses regulamentos, e, assim, permite que a população de maior vulnerabilidade social esteja mais sujeita às disseminações das doenças. Consoante a isso, o Estado reverbera o Enigma da modernidade elucidado pelo filósofo Henrique de Lima, de que a civilização é tão avançada em suas razões teóricas e tão indigente em suas razões éticas.
Ademais, a histeria coletiva fruto das epidemias contemporâneas, também, demonstra como os interesses econômicos têm sobressaído em relação ao valor da vida. Haja vista que observa-se no quadro atual da pandemia da Covid-19, por exemplo, a pressão de alguns setores da sociedade sobre a necessidade da volta do funcionamento econômico das cidades, mesmo que isso possa colocar em risco à vida do trabalhador, posto que a recomendação da Organização Mundial da Saúde, é o isolamento social. Diante disso, nota-se a “globalização perversa” que o geógrafo Milton Santos argumentava, pois essa coloca o lucro como o centro das decisões e não o ser humano.
Portanto, para mudar esse quadro é imprescindível uma nova postura do Poder Público. Para tanto cabe a esse disponibilizar uma parcela do produto interno bruto com objetivo de construir moradias adequadas e saneamento básico para a população que ainda não usufrua desses direitos e, assim, essa não fique tão a mercê das epidemias. Além disso, cabe à mídia a divulgação de comerciais que evidencia o valor inestimável da vida, a fim de que sensibilize o corpo social a preconizar o ser humano em vez do lucro. Desse modo, atenuar-se-á os efeitos das epidemias e a sociedade alcançará a Utopia de More.