Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva

Enviada em 26/06/2020

A renomada obra “Quarto de Despejo”, da antiga catadora de lixo e escritora, Carolina Maria de Jesus, traduz a resistência por parte da autora em ser tratada como “ despejo” em uma sociedade marcada pela desigualdade social. Fora das páginas, na atual realidade brasileira de intensa crise econômica e sanitária, cabe uma discussão democrática a respeito da infame inserção digital e insuficientes políticas públicas corretivas como razões para o acentuado aumento das disparidades, relativas as sofridas por Carolina. Visto isso, convém um olhar de enfrentamento a esse entrave, no sentido de consolidar o ideal de isonomia e minimizar as discrepâncias em momentos de instabilidade.

É lícito pontuar, a princípio, a responsabilidade do Estado em proporcionar acesso equânime aos meios de inclusão digital. Entretanto, lamentavelmente, esse direito não é eficazmente efetivado, visto que, consoante dados do IBGE 45,9 milhões de pessoas não possuem acesso à internet no Brasil. Por conseguinte, no cenário hodierno de colapso pandêmico, no qual foi necessário adaptar-se ao trabalho virtual, diversos indivíduos são expostos ao desemprego, acarretando, consequentemente, o aumento exacerbado das divergências socioeconômicas. Com isso, contraria-se a tese do exímio filósofo Hegel, a qual conclui como dever estatal garantir a autonomia social.

Soma-se à tamanha problemática, a inconsistência de políticas públicas atenuantes ao óbice abordado. Nesse sentido, merece destaque a pesquisa realizada pelo economista Thomas Morgan, a qual conclui que as disparidades de classes no Brasil não diminuíram nos últimos 15 anos. Assim, investimentos paliativos como o Bolsa Família e o Auxílio Emergencial mostram-se insuficientes para suprir as diligências econômicas e assegurar o bem-estar em longo prazo. Logo, assiste-se à estagnação do processo equalizador de oportunidades coletivas, erradicando, então, os princípios constitucionais.

Portando, diante das abordagens tecidas, cabe a atores primordiais- tais como o Ministério da Educação, da Tecnologia e da Economia- a criação de um Plano Nacional Unificado. Tal projeto criaria, de início, medidas resolutivas as condições vigentes de infraestrutura, para assim fomentar o desenvolvimento de programas de renda e empreendedorismo com cursos técnicos- disponibilizando redes de internet nas regiões afastadas-, por meio da parceria entre esses órgãos, com a finalidade de proporcionar capacitação e autonomia aos cidadãos segregados. Desse modo, poder-se-á progredir na luta pela equidade em um panorama pós-pandêmico.