Epidemias contemporâneas e seus desafios relacionados à histeria coletiva

Enviada em 10/11/2020

“Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas”. Na obra “A Peste”, o escritor Albert Camus evidencia que as epidemias, embora recorrentes na história da humanidade, ocasionam o caos e a histeria coletiva. Fora da ficção, verifica-se que a deficiência do Estado em propagar informações científicas e combater o compartilhamento de notícias falsas prejudica o enfrentamento adequado de surtos epidemiológicos. Em face disso, são necessárias medidas que atenuem os desafios relacionados à ação irracional durante as epidemias contemporâneas.

A princípio, convém ressaltar que a falta de estratégias educacionais impede a atuação correta para mitigar a disseminação de doenças. Nessa lógica, no início do século XX, a Revolta da Vacina  no Rio de Janeiro reverbera a escassez de transmissão de saber científico, uma vez que o Estado assumiu que a população não entenderia a vacina e a impôs. Atualmente, apesar do contato diário com mídias de informação, ainda há poucas campanhas educativas sobre patologias, sobretudo em áreas mais carentes. Logo, a ausência de divulgação massiva de informações técnicas contribui com a criação de movimentos anticientíficos e, por conseguinte, o combate à epidemias torna-se mais árduo.

Outrossim, nota-se que a propagação de notícias falsas dificulta ação frente surtos epidemiológicos. Sob tal ótica, o filósofo Pierre Levy, por meio do conceito de “Inteligência Coletiva”, defende que na internet - importante meio de comunicação contemporâneo - todos os usuários são membros ativos na produção e distribuição de ideias verdadeiras ou não. Nesse viés, a sociedade está cada vez mais imersa em conteúdos sem evidências científicas e notícias falsas. Em suma, o grande intercâmbio de informações não permite a filtragem de conhecimentos verídicos, causando histeria sem base científica.

Urge, portanto, que disposições sejam adotadas para decompor os entraves relacionados à desinformação sobre epidemias. Dessa forma, cabe ao Ministério da Saúde, instância máxima da administração dos aspectos hígidos do Brasil, mediante campanhas publicitárias nas mídias sociais, elucidar dúvidas e estabelecer contato direto com a população sobre as causas, consequências e medidas profiláticas de doenças epidemiológicas, para que sejam combatidas as notícias falsas e o conhecimento científico seja difundido. Assim, as iminentes epidemias alertadas por Camus serão tratadas de maneira racional por pessoas preparadas e não se desdobrarão como a revolta do século passado.