Espetacularização da solidariedade na mídia

Enviada em 25/10/2024

Em um episódio da série “Elite”, a personagem Cayetana, movida pelo “status quo”, organizou um evento de caridade, no qual as doações seriam destinadas a famílias carentes. Contudo, no meio da festa, descobre-se que o dinheiro arrecada-do seria para benefício próprio, um fato, infelizmente, cada vez mais comum na so-ciedade contemporânea. Dito isso, a espetacularização da solidariedade na mídia deve-se, principalmente, à banalização da falsa empatia e ao individualismo social exarcebado.

Sob esse viés, a generalização da ilusória bondade provoca essa excessiva expo-sição digital. Nessa perspectiva, segundo a socióloga Hannah Arendt, quando uma ação trangressiva ocorre múltiplas vezes, aqueles que a observam, param de vê-la como negativa. Dessa forma, a contínua presença de falsas atitudes altruístas nas redes sociais feita por influenciadores, por exemplo, em vista do “marketing” pes-soal, tornou-se rotina para a maioria dos usuários. Por conseguinte, tais atos imo-rais interferem nos verdadeiros projetos virtuais de empatia visto que, favorecem a persistência da magnificação da solidariedade na esfera midiática.

Além disso, o exagero da individualidade na sociedade também influencia bas-tante na manifestação incomum de práticas solidárias nos meios de comunicação. Nesse contexto, de acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, na modernidade lí-quida, o ser humano troca o coletivo pelo privado, isto é, fica mais centrado em sua personalidade. Todavia, o demasiado foco no ego pode deturpar as pessoas, ao ponto de poderem usufruir da compaixão alheia em troca de seguidores e de fama, por exemplo. Assim, tornar a ajuda ao próximo no centro das atenções nas redes sociais é característico da tendência ao individualismo social desnecessário.

Portanto, para que as causas da espetacularização da solidariedade na mídia sejam solucionadas, cabe aos meios de comunicação promoverem a tomada de consciência acerca do tema por meio de eventos, os quais estimulem a população a serem empáticas para o benefício do coletivo e não o próprio. Desse modo, espe-ra-se que os cidadãos desenvolvam suas identidades próprias sem excluir o próxi-mo nesse processo. Logo, a expectativa é de que a série “Elite” continue a expor o real motivo das aparentes ações caridosas do corpo social.