Espetacularização da solidariedade na mídia

Enviada em 27/10/2024

“Jogos Vorazes”, de Suzana Collins, é uma obra fictícia ambientada em um universo em que a hostilidade é explorada pela mídia. Entretanto, no Brasil atual, ocorre a espetacularização da solidariedade pela televisão, jornais e redes sociais. Se por um lado ocorre a exploração de situações degradantes como forma de engajamento, por outro, pessoas desamparadas pelo Estado são beneficiadas.

Nesse contexto, é notório que a dramatização do auxílio a pessoas fragilizadas é eticamente questionável. Referente a isso, o programa “Caldeirão do Huck”, exibi-do pela rede globo, foi um exemplo de solidariedade midiática que, ao mesmo tempo que auxiliava financeiramente pessoas hipossuficientes, expunha suas vidas privadas. Esse tipo de atitude leva à perpetuação de paradigmas sociais, das classes média e alta em relação a baixa, além de acarretar isolamento social e depressão. Dessa forma, em um país que, segundo a BBC Brasil, os 10% mais po-bres possuem menos de 1% do PIB, a exposição íntima se configura um fator que impede a superação dos tabus sociais que marcam a situação de fragilidade social.

Sob outra óptica, é inquestionável que a solideriedade midiática é responsável pelo bônus de pessoas que deveriam ser apoiadas pelo poder público. Acerca dis-so, Michel Foucault afirma que é papel governamental a garantia do bem-estar de todos os cidadãos, o que não ocorre na prática. Sob esse viés, a falta de eficiência do Estado em amparar aqueles que precisam, seja em necessidades básicas ou desejos particulares, é substituída provisoriamente pela ajuda das fontes de entre-tenimento tradicionais e digitais. Assim, oportunidades e direitos essenciais, que deveriam ser garantidos pelo governo, em uma nação que, de acordo com o IBGE, 30% sofre o esquecimento social, são remediadas pela imprensa, TV e internet.

Portanto, urge a necessidade de ação pública. Logo, cabe ao Ministério da Assis-tência arrecadar fundos para auxiliar pessoas carentes. Tal medida deve se concre-tizar pela elaboração de espetáculos públicos (como circos e festivais), que além de promover a arrecadação de reserva financeira destinada à assistência social, pro-porcionarão entretenimento e empregos. Desse modo, a classe baixa não dependerá exclusivamente de programas midiáticos como forma de sobrevivência e de alcance de objetivos.