Espetacularização da solidariedade na mídia
Enviada em 02/11/2024
Em um episódio da série “Black Mirror”, é retratada uma sociedade distópica, em que as aparências e a reputação digital ditam as relações sociais. De maneira aná-loga, analisando-se a espetacularização da solidariedade na mídia, entende-se que a realidade e a ficção convergem. Nesse viés, é preciso analisar esta problemática sob duas vertentes: a modernidade líquida e a sociedade do espetáculo.
Sob essa perspectiva, é preciso discutir, inicialmente, sobre a relação entre a liquidez moderna e a transformação da solidariedade em produto midiático. Segundo o filósofo Zygmunt Bauman, os valores da sociedade estão sendo colonizados pela lógica de mercado. No caso das ações solidárias, percebe-se, cada vez mais, que o foco delas tem deixado de ser na pessoa que está sendo ajudada, mas sim no ator que está ajudando, como maneira de angariar capital social e político. Dessa forma, é evidente o esvaziamento do sentido da caridade, que deixou de ser uma ação voltada a quem precisa de auxílio, mas sim a quem divulga, em busca de validação, as próprias ações humanitárias.
Ademais, é preciso discutir, também, sobre a transformação da solidariedade em espetáculo como forma de despolitização da sociedade. De acordo com filósofo Guy Debord, em seu livro “A Sociedade do Espetáculo”, a sociedade contemporâ-nea é caracterizada pela dominação do espetáculo, uma forma de poder que se manifesta por meio da imagem e da representação. Diante desse cenário, a parcela dominante da sociedade, interessada na manutenção do status quo, utiliza a mídia a seu favor, promovendo ações de caridade que os privilegiem, mostrando um lado humanitário, mas nunca atacando as raízes epistemológicas dos problemas que afetam as pessoas ajudadas.
Portanto, para combater os malefícios da espetacularização da solidariedade na mídia, medidas precisam ser tomadas. Cabe ao Poder Executivo Federal, interme-diado pelo Ministério da Educação, promover campanhas que expliquem profundamente o fenômeno da transformação da caridade em espetáculo. Estas campanhas deverão ocorrer por meio de debates públicos, abertos a toda a sociedade, com o intuito de elucidar a população sobre os prejuízos causados por este problema. Dessa forma, será possível evitar que a ficção se torne realidade.