Espetacularização da solidariedade na mídia
Enviada em 02/02/2025
A série “Black Mirror”, do streaming Netflix, apresenta em um de seus episódios uma sociedade onde a moeda de troca se torna as curtidas fornecidas no perfil de outras pessoas. Aqueles mais ricos são os mais “amados” por seus seguidores, e ditam também o que é ser bom ou ruim. Da mesma forma, o Brasil com o avanço das mídias sociais, apresenta uma deturpação do conceito de solidariedade, causado pelo imaginário do senso comum de “heroísmo” ao praticar uma boa ação, e ainda pela ausência de regulamentação de veículos de comunicação e mídias sociais no território nacional.
Assim como na série citada anteriormente, o ato de solidariedade tem se tornado uma moeda valiosa em redes sociais, muitas vezes capaz de determinar, para quem assiste, a índole do praticante. Entretanto, essa é uma realidade que perdura há seculos, já que por exemplo, durante as grandes navegações, a propaganda europeia para exploração de novas terras era a que estariam “salvando” os povos ameríndios de um estilo de vida selvagem. Da mesma forma, o imaginário heroico que substitui a caridade genúina, e não por interesses, vai de encontro com o dito por Rousseau, filósofo suiço: “O ser humano nasce bom, mas a sociedade o corrompe.”.
Contudo, sendo a liberdade de expressão um direito garantido pela Constituição Federal de 1988, a regulamentação de veículos de comunicação e mídias sociais deve garantir, sem censura, a proteção da imagem dos indivíduos. Em uma retrospectiva do jornalismo nacional, há o caso do sequestro da adolescente Eloá, em 2008, quando uma apresentadora de televisão, na intenção de conversar com o sequestrador acabou obstruindo a única linha de telefone que a polícia mantinha contato para negociações, sendo a dor da vítima exposta por audiência.
Em suma, levando em consideração a tendência humana observada ao longo da história de divulgar sua solidariedade, é necessário que o governo federal articule com o Congresso Nacional um projeto para regulamentação dos veículos de comunicação e mídias sociais, de maneira não a censurar informações, mas garantir o respeito à dignidade humana e a não espetacularização da solidariedade.