Espetacularização da solidariedade na mídia
Enviada em 02/07/2025
No romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, observa-se a perda da empatia em uma sociedade mergulhada no caos. Fora da ficção, a espetacularização da solidariedade na mídia brasileira reflete um cenário preocupante: a transformação de gestos solidários em entretenimento. Esse fenômeno compromete o valor ético da ajuda ao próximo e escancara falhas do Estado na garantia de direitos básicos à população.
Primeiramente, é primordial destacar o papel da mídia na exibição de ações solidárias com apelo emocional. Programas e perfis nas redes sociais exploram situações de vulnerabilidade como forma de atrair audiência, expondo beneficiários em troca de engajamento. De acordo com o conceito de “capital simbólico” do sociólogo Pierre Bourdieu, esse tipo de exposição gera prestígio a quem ajuda, mas pouco promove transformações estruturais na vida de quem é ajudado. Desse modo, a solidariedade deixa de ser um atributo que busca o bem alheio e torna-se uma simples moeda de troca, um produto que independe de virtudes ou ética.
Ademais, é de igual importância ressaltar como a falta de políticas públicas eficazes contribui para essa espetacularização. Segundo a Oxfam Brasil, milhões dependem de doações para sobreviver, o que reforça a inversão de papéis entre Estado e sociedade civil. Assim, a solidariedade deixa de ser complementar e torna-se resposta principal a desigualdades profundas, que deveriam ser enfrentadas com políticas de redistribuição de renda e acesso a direitos básicos. Nesse sentido, a sociedade passa a não mais enxergar a negligência estatal que primeiro ocasionou essa problemática, pois passa a ver o mundo através de uma lente ideológica, que é, segundo Karl Marx, uma falsificação da realidade.
Portanto, é necessário reconfigurar essa realidade. Dessa forma, é fundamental o intermédio do Ministério da Cidadania, junto ao Ministério da Educação, através do ato de promover campanhas educativas sobre solidariedade ética e responsável, por meio das escolas e mídias digitais. Além disso, o governo deve investir em políticas públicas que reduzam desigualdades, para que a solidariedade seja expressão de empatia, e não espetáculo.