Esporte e cidadania na sociedade brasileira

Enviada em 30/12/2020

A megalomania dos Jogos Olímpicos é sustentada pela opulência de um evento midiático de ampla transmissão. Entretanto, algo pouco percebido é a íntima relação dos esportes com a cidadania, principalmente em um país como o Brasil, no qual os direitos são raramente assegurados. Afinal, uma análise da criminalidade permite compreender tal aspecto cidadão, devendo-se, ainda, assegurar o acesso dos menos favorecidos à prática.

Inicialmente, é dever do Estado promover o pleno desenvolvimento de seus componentes: ao alijar a criminalidade, o esporte é cidadania. Em outras palavras, pelos princípios deterministas, o caos da miséria brasileira pode converter jovens ao mau caminho senão amenizado pelo civismo. Nesse sentido, a prática esportiva requer compromisso do indivíduo consigo mesmo- a exemplo da disciplina dos treinos-, mas também com o grupo. Em contexto, tal fator inspira a empatia e o espírito comunitário- essenciais à harmonia social. Analogamente, é comum ver atletas, como o célebre futebolista Cafu, que, imunes ao crime, perdem amigos para o tráfico. Enfim, negar dignidade pela força do esporte é um delito social.

Em segundo plano, os mais pobres não têm acesso às práticas discutidas, algo que urge mudar. Historicamente, isso é fruto da projeção urbanística brasileira, a qual segregou as massas às periferias e restringiu os serviços aos centros. Em contraste, o meio capaz de romper tal distância, isto é, o transporte público, é, sabidamente, precário e mal articulado. Como consequência, busca-se instalar as atividades nos locais afastados- algo bem mais simples que a reestruturação do sistema de mobilidade urbana. Nacionalmente, porém, o fracasso é patente: apenas 30% das escolas públicas de ensino fundamental são munidas de quadras, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Já regionalmente, o Rio presenciou o sucateamento do programa “Vila Olímpica”, que levava judô, natação e vôlei às comunidades carentes. Finalmente, a persistência de tal desídia sob um país sede das Olimpíadas evidencia a perda de um legado republicano: o povo.

Em suma, as atividades desportivas, símbolo de cidadania enquanto antídoto à criminalidade, necessitam ser acessíveis a todos. Comprometidamente, os governantes devem, por meio de reformas no modelo educacional, projetar escolas cada vez mais integradas com os desportes, como uma revitalização do programa “Vila Olímpica” que mantenha, em contraturno, o estudante conectado ao ambiente colegial com quadras poliesportivas, para que o Brasil forme cidadãos. Só assim, jogadores de futebol não perderão amigos para a violência.