Esporte e cidadania na sociedade brasileira

Enviada em 25/12/2020

O filme “Invictus” retrata o poder inclusivo do rúgbi após o fim do Apartheid na África do Sul. Na realidade brasileira, porém, a prática esportiva está muito aquém de alcançar a completude de sua função social, uma vez que tal ferramenta não é fomentada e estimulada de maneira plena, principalmente em áreas periféricas e regiões do interior do país. Tal fato está alicerçado não só na ineficiência de políticas públicas de desenvolvimento esportivo, mas também na influência histórica de desestímulo à práticas esportivas relacionadas a grupos sociais segregados.

Em primeira análise, é inquestionável que a baixa abrangência de políticas públicas relativas ao esporte emerge como um fator promotor desse impasse. Diante disso, segundo o filósofo contratualista John Locke, o ser humano possui direitos naturais, como a saúde, a segurança e o lazer. Entretanto, é notório que a realidade deturpa o contrato social, uma vez que a prática desportiva, sendo um elemento social integrador, tem seu papel prejudicado por tais mecanismos legislativos, o que gera um nefasto aumento nos índices de segregação socioespacial. Logo, é inaceitável que, em um país com elevadas taxas tributarias como o Brasil, os cidadãos não tenham o exercício pleno da cidadania.

Além disso, é inegável que a influência histórica do desencorajamento de práticas relacionadas a grupos sociais segregados -tais como negros e pobres- é causa direta do cerceamento do esporte no Brasil. Destarte, de acordo com o antropólogo Claude Levy Strauss, para compreender os problemas atuais de uma sociedade, faz-se necessário conhecer as forças políticas, históricas e sociais que lhe serviram de influência. Desse modo, a criminalização da capoeira durante o século XIX reflete em como os grupos sociais historicamente desfavorecidos não tem sua integração de maneira íntegra no mundo dos esportes.

Depreende-se, portanto, que medidas fazem-se necessárias para a superação desse entrave. Cabe ao Ministério do Esporte, em parceira com os governos municipais e estaduais, a elaboração de programas de incentivo à prática esportiva que, por meio da criação de ginásios poliesportivos em periferias de grandes cidades e em cidades do interior, as quais serão destinadas à parcela mais carente da população. Ao Ministério da Cidadania, por sua vez, cabe a criação de projetos sociais que, mediante o fornecimento de bolsas de apoio aos atletas iniciantes, possibilite a maior integração social pelo esporte. Espera-se, com isso, que o desporto cumpra o seu papel social como em “Invictus”.