Esporte e cidadania na sociedade brasileira

Enviada em 12/01/2021

No fim do século XIX, Júlio Verne, em “2000 Léguas Submarinas”, vislumbrou para o futuro uma sociedade moderna, mergulhada na evolução e no otimismo. A pós-modernidade corrobora, em parte, as projeções do autor, mas a compactuação da sociedade, por não acreditar na transformação de uma realidade e a ineficiência estatal em decorrência da secundarização da pauta materializam a antítese da prospecção do autor francês e dificultam o esporte como ferramenta de inclusão social no Brasil.       Mormente, a aceitação da sociedade consubstancia maiores desafios. Nesse sentido, parte da sociedade, ao temer a incerteza de um futuro estável proveniente do esporte, opta por não integrar a si ou aos filhos nesse meio. Esse traço comportamental pode ser compreendido à luz da reflexão de Carl Gustave Jung - um dos principais nomes da psicanálise-, que, em sua obra “Arquétipos e Inconsciente Coletivo”, reflete o processo de sociabilização do pensamento na formação de culturas, uma vez que esse caráter passivo perfaz-se como um traço submerso nas mais íntimas camadas das interações psicossociais. Assim, é factível concluir que alguns indivíduos partilham do mesmo pensamento e acreditam na impossibilidade de mudança desse cenário, em que o desporte não é segurança de uma vida financeira garantida.

Outrossim, a ineficácia estatal é uma problemática a ser analisada. Sob essa visão, o sociólogo brasileiro Simon Schwartzman, ao revisitar o pensamento de Max Weber desenvolve o conceito de “Neopatrimonialismo”, a fim de estabelecer as bases estruturais do Estado brasileiro, que, como práxis política, apropria-se da função pública, com vistas à satisfação de interesses privados, subjetivos e dos grupos de poder que o sustentam, secundarizando demandas da maioria da população. Desse modo, infere-se que apesar do interesse populacional acerca das atividades esportivas o Estado não investe adequadamente nessa pauta, tornando complexa a inclusão social, uma vez que alguns indivíduos, como moradores de periferia, são prejudicados por ter menos acesso ao esporte.

Em suma, faz-se necessária a tomada de medidas atenuantes ao entrave abordado. Portanto, urge que o Ministério da Cidadania, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte (LIE), aplique recursos provenientes da renúncia fiscal em projetos das diversas manifestações desportivas distribuídos por todo o território nacional. Ademais, por meio de doações e patrocínios, os projetos executados via LIE deverão atender pessoas de todas idades, além de garantir o suporte necessário para que aos atletas de alto rendimento participem e representem o Brasil em competições nacionais e internacionais. Tais medidas deverão ser tomadas a fim de tornar o esporte uma ferramenta de inclusão social. Dessarte, a sociedade contemporânea estará mais próxima do que Júlio Verne vislumbrou para o futuro.