Esporte e cidadania na sociedade brasileira

Enviada em 24/08/2021

Na obra “Utopia”, do escritor Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e de problemas. No entanto, o que se observa na contemporaneidade é o oposto do que o autor prega, uma vez que a ausência do esporte – que é o exercício da cidadania – na vida das pessoas representa barreiras, as quais dificultam a concretização dos planos de More. Diante dessa perspectiva, faz-se imperiosa a análise da postura estatal ineficiente e da alienação da coletividade.

Convém ressaltar, a princípio, a negligência do Poder Estatal frente à importância do esporte. A exemplo disso, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apenas 26,8% das escolas públicas de ensino fundamental possuem quadra de esporte. Dessa forma, tendo em vista que os jovens passam a maior parte do tempo no ambiente escolar, grande parte deles não acessam o esporte. Isso impede o exercício da cidadania a partir desse meio e impossibilita, frequentemente, a única forma de acesso ao lazer que esses cidadãos poderiam ter, o que acaba por intensificar a desigualdade social. Essa conjuntura, segundo o filósofo contratualista John Locke, configura-se como uma violação do que ele denomina por “Contrato Social”, já que o Estado não cumpre o seu dever de assegurar direitos indispensáveis, como o esporte e o lazer, o que, infelizmente, é notório no país.

Ademais, é pertinente evidenciar que a alienação do corpo social impulsiona o problema abordado. Nesse viés, Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, afirma em sua obra “Modernidade Líquida” que a falta de solidez nas relações sociais da pós-modernidade propicia a alienação do indivíduo. À luz desse pensamento, as pessoas, ao não protestarem contra à inoperância estatal frente à garantia do esporte, uma vez que não veem a interrelação entre esporte e cidadania e tampouco reconhecem o lazer como um direito que deve ser garantido pelo Estado, cooperam com a ilegalidade e colaboram para a manutenção dela. Desse modo, são inúmeros os imbróglios acarretados, como a redução da qualidade de vida e o aumento do sedentarismo. Logo, é inadmissível que essa realidade continue a perdurar.

Depreende-se, portanto, a necessidade de combater o panorama elencado. Para isso, o Executivo, por meio do capital do Tribunal de Contas da União (TCU), deve utilizar os dados estatísticos do Inep em relação à presença do esporte e intensificar investimentos na construção de quadras esportivas nas escolas e em bairros periféricos que não possuem esse recurso, a fim de garantir esse direito e efetivar o exercício da cidadania a todos os brasileiros, o que deve reduzir, a longo prazo, adversidades como o sedentarismo e a obesidade, decorrentes da falta de exercícios físicos.