Esporte e cidadania na sociedade brasileira

Enviada em 23/10/2021

No filme ‘‘Meu nome é rádio’’, o protagonista John Robert Kennedy, detentor de uma deficiência intelectual, foi acolhido pelo treinador de futebol americano Harold Jones, que o colocou em seu time, apesar dos protestos realizados por outros jogadores da equipe. Embora ficcional, o longa retrata diversos fenômenos presentes no país, tal como o uso do esporte como ferramenta de inclusão social. No contexto brasileiro, o poder transformador da prática desportiva, ainda que real, é limitado pela carência de investimentos e a desigualdade no acesso à infraestrutura. Diante disso, é fundamental analisar o atual panorama para desconstruir essa realidade.

É importante considerar, antes de tudo, o impacto negativo do baixo investimento governamental na promoção do esporte brasileiro. Acerca disso, convém ressaltar que, para o poeta Leandro Flores: ‘‘o esporte é a ferramenta de inserção social mais eficaz, pois seu resultado é imediato e as transformações são surpreendentes’’. Entretanto, ao observar a realidade do país, nota-se que, na prática, esse instrumento é subutilizado, haja vista a falta de auxílios financeiros concedidos aos atletas, impedindo-os, por exemplo, de acessarem locais dignos de treinamento - onde poderiam aprimorar suas habilidades e ascender profissionalmente. Em decorrência desse cenário, é notória a necessidade de uma ação mais efetiva do Estado.

Outrossim, é válido destacar a desigualdade no acesso às atividades esportivas, que privilegia os mais ricos, em detrimento da população pobre. Sob essa premissa, a falta de uma infraestrutura apropriada nas regiões periféricas reflete as contradições socioeconômicas do país. Nesse sentido, dados do Instituto Nacional de Estudos e Políticas Educacionais - INEP - revelam que, das cerca de 132 mil escolas públicas brasileiras, somente 35.440 possuem quadra de esportes, cifra inferior à existente nos colégios privados. Dessa forma, os esporte se torna um mero reprodutor das relações econômicas presentes na sociedade, onde as oportunidade são limitadas para aqueles que não possuem renda.

Infere-se, portanto, que a problemática atual decorre da ausência de incentivos e da desigualdade social. Sob essa ótica, urge que o Ministério do Esporte e Cidadania rompa com essa situação, por meio da concessão de bolsas aos atletas, a serem distribuídas conforme o rendimento desses em competições nas suas respectivas modalidades, a fim de prover o necessário para o desenvolvimento do profissional. Ademais, assiste ao Ministério da Educação, fornecer, nas escolas públicas, a infraestrutura necessária para a realização eficiente das aulas de educação física, mediante parceria com clubes privados, com o fito de diminuir a iniquidade existente nesse âmbito. Somente assim, será possível utilizar o esporte a serviço da inclusão - como ocorrido em ‘‘Meu nome é rádio’’.