Evasão escolar e a realidade brasileira
Enviada em 29/09/2018
Em “Triste fim de Policarpo Quaresma”, livro pré-modernista de Lima Barreto, Policarpo, ao final da narrativa, constata que “a pátria que quisera ter era um mito”, dado o fracasso de seus projetos para o Brasil. Essa descrença no país ganha contornos contemporâneos diante de cenários desafiadores, como o aumento dos casos de evasão escolar. Nesse sentido, urge evidenciar, na realidade brasileira, as implicações desse senão, o qual encontra sua gênese, não apenas em nefastas políticas públicas, mas também em questões aquém da educação.
Mormente, é preciso preconizar a influência de fatores externos nos casos de abandono escolar. Segundo o estudo “Aprendizagem em Foco”, feito com dados do IBGE e do Ministério da Educação, a renda familiar reflete na continuidade do indivíduo na escola, ou seja, quanto menor a renda, menos os estudantes avançam nos estudos. Porquanto, a “fuga” desse ambiente provoca graves problemas sociais ligados intrinsecamente: aumento do trabalho infantil, ciclo da manutenção da pobreza e dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Com efeito, a concretização da “pedagogia do oprimido”, defendida pelo pensador brasileiro Paulo Freire - na qual o objetivo da educação é levar as parcelas desfavorecidas da sociedade a entender sua situação de oprimida e agir em favor da própria libertação -, fica ameaçada.
Outrossim, a depreciação do sistema educacional brasileiro, em sintonia com a falta de investimentos e infraestrutura, estimula a evasão. Escolas lotadas, deslocamento inviável, principalmente para os que vivem em áreas rurais, conteúdos extensos, falta de acessibilidade: são todos fatores relacionados a essa questão. Dessa forma, o senão discutido está aquém de causas mais específicas, dado que envolve o conjunto da sociedade, do Estado e da família, os quais, rateiam ao cumprir seu papel com a educação - consoante a Constituição Cidadã, é dever dessas esferas, em conjunto, garantir esse direito. Por conseguinte, evidencia-se, seja a exposição da população jovem a questões como a falta de profissionalização, o mundo das drogas e o desemprego, seja a queda dos índices brasileiros no cenário internacional no contexto social.
Frente a esse cenário, urge a tomada de medidas de intervenção. Convém ao Ministério da Educação, haja vista seu papel Executivo sobre a educação, promover alterações no Sistema Educacional Brasileiro, mediante o diálogo com os estudantes - suas aspirações -, por intermédio de Projetos de Lei desenvolvidos em conjunto com a sociedade civil e o Legislativo, com vistas à diminuição da evasão e à construção de uma escola em concordância com a Psicologia do Oprimido e a com os limites estruturais. Em suma, teríamos um país em que os ideais não são reduzidos a mitos.