Evasão escolar e a realidade brasileira

Enviada em 30/09/2018

“Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas”. Esse pensamento do educador Rubem Alves remete à reflexão: em qual desses papéis a escola brasileira está atuando? Nesse viés, o contexto educacional revela um cenário preocupante no que tange à evasão escolar, sobretudo, no Ensino Médio, evidenciando que, além da garantia do acesso à educação, o principal desafio é a permanência do estudante no ambiente acadêmico, isto é, na adoção de práticas que despertem no jovens o interesse pela vida escolar. Diante disso, torna-se imprescindível questionar os fatores desencadeadores dessa realidade, bem como analisar os seus impactos no corpo social.

Em primeiro plano, importa destacar a falta de gestão democrática na escola contemporânea. Sob essa ótica, pode-se afirmar, na concepção do pedagogo Paulo Freire, que o processo educacional atual não considera o “mundo do aluno” no processo de construção do conhecimento, o que acarreta a não contextualização do discente nos conteúdos abordados. Ademais, a falta de infraestrutura e a reduzida disponibilidade de recursos didático-pedagógicos corroboram tal quadro, já que, majoritariamente, as escolas não possuem laboratório de Física e Química, biblioteca adequada e o uso efetivo das tecnologias na sala de aula. Logo, essa desconexão com a realidade causa desinteresse do aluno.

Também é essencial pontuar as consequências nefastas da evasão escolar. Nesse sentido, ressalta-se que a escola passa a não desempenhar a sua função fundamental de formar sujeitos autônomos para a vida em sociedade de forma crítica e emancipatória, com capacitação para as relações sociais e para o convívio com as diversidades. Esse fato mitiga o potencial de reflexão e de emissão de juízos do indivíduo, o que configura o estado de menoridade intelectual kantiana. Dessa forma, conforme o sociólogo Pierre Bourdieu, ocorre a perpetuação das instituições sociais por força do “habitus”, ou seja, da incorporação das estruturas sociais sem que o sujeito tenha consciência disso.

Diante do exposto, urge a adoção de medidas para inovar a escola, atrair o aluno e evitar a sua evasão. Para isso, é indispensável que as escolas implementem uma gestão democrática por meio do incentivo à formação de grêmios estudantis, com o fito de instigar a participação do corpo discente nos processos de decisão, visando ao desenvolvimento de uma postura que refletirá na atuação política social na luta por direitos. Além disso, é preciso que o Ministério da Educação dilate a oferta do ensino em tempo integral, por intermédio não só da contratação de professores de dedicação exclusiva e da ampliação da carga horária, mas também da alteração do modelo de escola, com ensino mais contextualizado e multidisciplinarizado, a partir da formação continuada dos professores, colocando, ainda, o jovem como protagonista, com o objetivo de tornar a escola mais interessante e inspiradora.