Evasão escolar e a realidade brasileira

Enviada em 23/10/2019

No livro “A elite do atraso”, o sociólogo Jessé Souza analisa a sociedade brasileira desde sua origem. Para o autor, há  percepção de que pobres são subhumanos, em continuidade da escravidão de anteriormente. Nesse contexto, a educação oferecida para a população desprovida de recursos é tratada com desdém. Assim, a evasão escolar representa uma faceta para a manutenção do status quo. Diante disso, é crucial analisar os aspectos socioeconômicos que influenciam o abandono dos estudos, bem como a estrutura das instituições de ensino.

Primordialmente, há de se reconhecer que a evasão escolar, na maioria casos, decorre do ambiente socioeconômico dos estudantes. Não raro, o abandono dos estudos é tradição familiar há gerações. A falta de dinheiro exige que o indivíduo priorize atividades remuneradas em detrimento dos estudos, mesmo que isso afaste a chance da vida melhor no futuro. Afinal de contas, a fome é agora. Em muitos casos, a atividade envolve a criminalidade. Outra possibilidade é a gravidez na adolescência, que habitualmente extrai jovens das salas de aula para cuidar de crianças. Segundo dados do IBGE, apenas 2% das mães adolescentes dão sequência aos estudos. Essas situações se repetem ao longo das gerações, e esse círculo vicioso dificilmente é rompido.

Adicionalmente, outro aspecto que contribui para a evasão é a estrutura deficitária das escolas brasileiras. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o governo brasileiro gastou US$3,7 mil por cada aluno, enquanto que a média da OCDE foi de US$10 mil. Além disso, muitos alunos moram longe das escolas, o que exige deles tempo e força de vontade para continuar os estudos. Uma vez na escola, o discente encontra vários obstáculos, como salas cheias, escassez de equipamentos, bullying e professores que enfrentam a desvalorização de suas carreiras. A soma desses fatores dificulta a consolidação de um ambiente que fomente o aprendizado.

Portanto, urge que o Estado brasileiro atue para alterar essa situação. A principal ação é o investimento no sistema educacional. É crucial que o Estado Brasileiro aproxime seu investimento ao mesmo patamar dos membros da OCDE. Para isso, o orçamento anual dedicado à Educação deverá ser vinculado ao valor médio a ser gasto por aluno matriculado, em vez de uma porcentagem do PIB, de modo a garantir o recurso independentemente de flutuações econômicas. Os gastos devem objetivar a ampliação do número de escolas, de modo a aproximá-las dos estudantes e reduzir o número de alunos por sala; bem como a valorização da carreira docente por meios salariais e estruturais. Somente assim, o círculo vicioso da subhumanidade será quebrado.