Evasão escolar e a realidade brasileira

Enviada em 30/10/2019

No século XVIII, o iluminista Voltaire,em ‘‘Cândido ou o Otimismo’’,promovera profunda ruptura com a filosofia romântica de Leibniz ao ironizar a compreensão de que se vivia no melhor dos mundos possíveis.Contemporaneamente, o panorama de negligência estatal e inércia social parece definitivamente legitimar as ideias protagonizadas pelo pensador francês.Com efeito,compreender e transformar o complexo paradigma de evasão escolar mostra-se um afazer de indubitável relevância.

Em uma primeira perspectiva, o crescimento exponencial de saída das escolas ergue-se como uma realidade em decorrência da inabilidade governamental.Isso porque o Estado secundariza causas sociais que não se mostrem úteis ao fisiologismo de sua agenda,visto que,acastelado pelos seus governantes,ocorre a priorização de gastos em benefício próprio em detrimento de investimentos em uma educação que tenha condições estruturais, de amparo social e apoio psicológico para atender universalmente aos discentes.Nesse sentido,o filósofo Thomas Hobbes,em ‘‘O Leviatã’’,desvela que o Governo deveria garantir o bem-estar social.Essa reflexão materializa-se no presente momento do país,na medida em que o Poder Público descumpre seu papel e,por conseguinte,indivíduos têm seus direitos educacionais,estabelecidos no preâmbulo da Constituição Federal de 1988,deslegitimados.

Ademais,em um segundo plano, a elevação do êxodo escolar arquiteta-se como expressão mínima da inação populacional.Esse quadro sociológico instaura-se devido ao resultado de expressiva parcela da sociedade omitir-se diante de problemas sociais,já que considera preferível a inércia a mobilizar-se e pressionar o governo por mudanças.Essa afirmativa possui estreita relação com a premissa defendida pelos filósofos Félix Guattari e Gilles Deleuze,em ‘‘Mil Platôs’’,de que a contemporaneidade produz corpos dóceis,com o intuito de torná-los apáticos e,consequentemente,compactuarem com a realidade existente.Desse modo, a coletividade não se manifesta a favor dos alunos,os quais possuem suas garantias educacionais perdidas e permanecem excluídos ou negligenciados.

Portanto, a compactuação da população e a displicência do Estado instauram a realidade do aumento da evasão escolar na sociedade brasileira.Assim,o Poder Executivo Federal,sob a forma de Ministério da Educação,deve promover políticas de inclusão social, por meio de incentivos a empresas privadas que,em contrapartida, invistam em infraestrutura,apoio psicológico e material,estatísticas e resgate de discentes ao sistema escolar,as quais funcionem em período integral, com a finalidade de garantir os direitos individuais à educação.Concomitantemente, o Governo também deve investir na conscientização social,por meio de propagandas publicitárias a respeito da causa.Dessa forma,os cidadãos seriam dignificados,e a filosofia romântica de Leibniz poderia,enfim,tornar-se realidade.