Evasão escolar e a realidade brasileira
Enviada em 01/11/2019
‘‘Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem’’. O excerto do livro ‘‘Ensaio sobre a Cegueira’’, de José Saramago, critica uma sociedade invisual ao seu contexto. Analogamente, tal obra ilustra o cenário contemporâneo, uma vez que o corpo social é inobservante sobre a evasão escolar e a realidade brasileira, fruto da vulnerabilidade estudantil e da estrutura de ensino.
A princípio, a fragilidade econômica estudantil contribui para o quadro vigente. Nesse sentido, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas, a necessidade de trocar os estudos para contribuir com a renda familiar é um dos principais motivos da evasão escolar, haja vista que o jovem tende a priorizar o seu sustento. Dessa maneira, é inaceitável que apesar do Estatuto da Criança e do Adolescente estar presente na Constituição, o Poder Público não seja capaz de efetivar o pleno acesso ao âmbito educacional para essa fatia demográfica.
Não obstante, a falta de interesse acadêmico corrobora a essa realidade. Mormente, o educador Paulo Freire afirma que a ausência de uma educação conscientizadora causa problemas sociais. Sob tal ótica, muitas vezes, não há atração significativa pelos estudos, principalmente efetivada pelos professores, consequência não apenas da baixa remuneração dos docentes, como também da precária infraestrutura dos colégios públicos. Dessa forma, é inadmissível que o tecido social não compreenda que tal contexto impulsiona a evasão, pois compromete o entendimento da matéria e a perspectiva nos estudos como forma de ascensão social.
Torna-se evidente, portanto, que o a problemática necessita de maior notabilidade. Logo, o Tribunal de Contas da União, tendo em vista seu papel na fiscalização contábil, deve destinar capital que, por intermédio do Ministério da Educação, será revertido na criação do programa ‘‘Todos na Escola’’. Ademais, essa ação será realizada através de auxílio permanência para alunos mais propícios a evadir, com controle de frequências nas aulas e o contato periódico entre as famílias dos estudantes e os gestores das instituições, a fim de motivar o interesse pela sala de aula e combater a evasão. Sendo assim, como proferiu Saramago, ‘‘Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara’’.