Evasão escolar e a realidade brasileira
Enviada em 02/11/2019
Na série canadense “Anne with an E”, Gilbert, de 12 anos, é forçado a interromper seus estudos e trabalhar em período integral após a morte de seu pai. Nesse contexto, a trama retrata os desafios vivenciados por ele frente à despreparação profissional, à insegurança financeira e à incerteza quanto ao futuro. De forma análoga, segundo dados do Banco Mundial, 52% dos brasileiros entre 15 e 19 anos gradualmente abandonaram os estudos em 2018, tornando a história desse personagem uma dolorosa realidade em nosso país. Dessa forma, convém analisar as principais causas, consequências e possíveis soluções para esse impasse.
A priori, deve-se citar empecilhos para chegar à escola diariamente, em especial na zona rural, como motivadores para esse cenário. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, é dever do Estado garantir o acesso à educação a todos os menores do país. Entretanto, sabe-se que esse direito, infelizmente, não é plenamente garantido, visto que muitos discentes não comparecem à aula devido à distância entre suas casas e o colégio e à falta de transporte público conveniente no interior dos estados. Isso, juntamente do fato de muitos pais não terem condições para levar seus filhos às instituições pessoalmente, contribui fortemente para esta inadmissível situação.
Ademais, é necessário indicar a situação econômica desfavorável de muitas famílias como importante precursor desse problema. Nesse sentido, muitos adolescentes são obrigados a auxiliar com as despesas da casa e, incapazes de conciliar suas atividades laboriais com os estudos, acabam por largá-los completamente a fim de alcançar sua autonomia financeira. Consequentemente, tornam-se desqualificados para o mercado de trabalho e passam a depender de empregos mal remunerados em virtude da falta de diploma de ensino médio, a qual os impede de candidatar-se a cargos melhores ou matricular-se em universidades. Desse modo, propaga-se o ciclo da pobreza e a desigualdade social.
Logo, é evidente que medidas devem ser tomadas para atenuar esse preocupante cenário. Em primeiro lugar, faz-se imprescindível que o Estado subsidie ônibus escolares com rotas que atinjam todas as regiões as quais abriguem crianças em idade escolar, a fim de assegurar sua presença diária na sala de aula. Além disso, o Ministério da Educação deve implementar um software em toda a rede pública de ensino que permita o acompanhamento mais individualizado de cada aluno, através de registros não só de notas, mas também de comportamento e circunstâncias familiares, com o intuito de indicar estudantes mais vulneráveis à evasão e alertar gestores para que tomem providências e a previnam. Dessa maneira, será possível atenuar os alarmantes índices do Banco Mundial e transformar os Gilberts de nosso país em minoria.