Evasão escolar e a realidade brasileira

Enviada em 08/07/2020

Na obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago descreve uma epidemia de cegueira que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente as adversidades sociais, uma vez que os indivíduos não as veem para poder combatê-las. Na atualidade, a sociedade brasileira parece estar acometida por uma similar espécie de cegueira, isso porque o fenômeno da evasão escolar não é devidamente visado, o que compromete decisivamente seu combate. Posto isso, deve-se analisar a influência da Globalização Perversa na interrupção do processo educacional, bem como as consequências de tal problemática na formação cidadã dos indivíduos.

Primeiramente, é importante ponderar os reflexos negativos do processo de globalização como principais causas da evasão escolar. Sobre esse fenômeno, Milton Santos definiu como “Globalização Perversa” o processo em que o desenvolvimento das cidades, ao invés de propiciar a atenuação das desigualdades, contribui para o aumento delas e, por conseguinte, para a imposição de barreiras socioeconômicas às populações de baixa renda. Desse modo, a concentração de colégios de qualidade de infraestrutura nas áreas ricas da cidade aumenta aumenta a distância que estudantes de bairros mais humildes precisam enfrentar para chegar à escola. Somado a isso, as condições precárias das escolas públicas em locais pobres e a falta da oferta de transporte acessível são fatores que impactam negativamente a propensão das crianças e adolescentes ao estudo.

Como consequência, a não conclusão do desenvolvimento educacional adequado implica uma Cidadania Substantiva incompleta. O conceito, aplicado e compreendido após os estudos de T.H. Marshall, define-se como a posse de direitos políticos, sociais e econômicos. Assim, em virtude de a formação educacional ser impedida, os direitos sociais são transgredidos, desencadeando, como resultado, uma cidadania fragmentada. Tal conjuntura é absolutamente incompatível com os princípios da Constituição Brasileira e deve ser mitigada.

Portanto, é imprescindível combater a realidade da evasão escolar no Brasil. Logo, o Ministério da Educação, como responsável pela manutenção da educação irrestrita no país, deve, por meio de verbas públicas, criar unidades de mapeamento das áreas que carecem de escolas de qualidade. Essas unidades direcionarão as prioridades de investimento e as localizações estratégicas dos colégios a serem construídos pelo Ministério. Ademais, as logísticas de transporte, alimentação e manutenção devem ser providenciados pelo MEC. Com isso, um conjunto social cujas características se afastarão de comparações com o livro de Saramago será alcançado.