Evasão escolar e a realidade brasileira

Enviada em 08/07/2020

Em 1872, conforme o escritor Hélio Guimarães, a população em idade escolar, que somava quase dois milhões de alunos, apresentava somente 16,9% em sala de aula. Esse triste cenário demonstra total descaso governamental do império em relação a uma política pública que assegurasse o acesso democrático de crianças e adolescentes à escola. Infelizmente, essa realidade persiste, justificado pelo plano histórico de negligência do governo e pelo elevado índice de pobreza da população.       Primeiramente, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. Essa afirmação revela muito da ideologia elitista brasileira que, desde a escravidão, renega aos afrodescendentes e aos pobres uma estrutura digna de vida, como a democratização da inserção de desses infantes e jovens nos bancos escolares. Tal qual aparece nos dados acima e no conto “Conto de escola” de Machado de Assis, o propósito dos governantes era estabelecer, quase sempre, uma desigualdade tanto econômica quanto acadêmica, fazendo com que esses cidadãos marginalizados se afastassem, cada vez mais, das posições sociais de liderança. Na narrativa acima, a escola, em vez de ser acolhedora, revela-se punitiva e distante do cotidiano do personagem Pilar. A educação oferecida não questionava a estrutura de exclusão, servia, ao contrário, a ela e a disseminava.

Ademais, atualmente o índice alarmante de abandono escolar no país ainda está diretamente relacionado ao nível econômico. Consoante o jornalista Gilberto Dimenstein no livro “Quebra-cabeça Brasil”, sem ter alimentação, vestuário, energia elétrica e saneamento básico, muitos alunos priorizam outras metas em suas vidas, pois acham que a escola está distante de sua realidade. Em um cotidiano faltoso, a necessidade de entrar no mercado de trabalho (formal ou informal), seja para ajudar na renda da família, seja para assistir a seu próprio filho, faz com que muitos desses atores sociais tenham que desistir dos estudos pela dupla jornada de trabalho, às vezes três, no caso de jovens grávidas.

Portanto, com vista a mitigar a reconhecida desigualdade social e garantir a continuidade de alunos nas instituições de ensino do Brasil, os Ministérios da Educação e da Cidadania deverão arrecadar mais verbas para a educação pública, investindo em projetos esportivos, artísticos e educativos para alunos em vulnerabilidade social por meio de aumentos de impostos de empresas privadas. Esses ministérios também deverão possibilitar a incorporação de jovens estudantes no mercado de trabalho por intermédios de convênios entre escolas e empregadores, os quais, nesse caso, especificamente, viabilizarão estágios remunerados aos discentes de baixa renda. Assim, a realidade vivenciada por Pilar em 1840 e os dados datados no fim do século XIX permanecerão apenas em um passado infeliz.