Evasão escolar e a realidade brasileira
Enviada em 26/03/2021
“Lugar de criança é na escola” foi um slogan propagado, nos idos dos anos 2000, na tentativa de reverter um quadro alarmante de crianças fora da escola. Entretanto, passadas algumas décadas, a despeito da maior participação da população jovem no ambiente escolar, a parcela que o abandona também tem aumentado exponencialmente, constituindo um grave problema na realidade brasileira. Dessa maneira, a cultura de abandono dos estudos, pautado nas desigualdades sociais e nas deficiências estruturais do ensino, cerceia futuros, contribui para a falência do indivíduo e, sobretudo, para o fracasso do país enquanto nação.
Em primeiro lugar, vale salientar que abordar a evasão escolar é jogar luz sobre as desigualdades sociais do Brasil. Ou seja, o ensino público dispensado nos rincões do país é infinitamente aquém daqueles da elite. Isso se explica, segundo o educador Anísio Teixeira, porque a educação brasileira é um processo de formação exclusivo de uma parcela privilegiada, o que de fato, contribui para uma cadeia de manutenção de poder. Assim, o déficit na gestão da educação é proposital, reverberado, por exemplo, na fuga dos estudantes das salas de aula país adentro, com índices de 45%, de acordo com o Ministério da Educação. Dessa forma, resulta-se em um sistema falido, que reproduz as mesmas anomias sociais que tenta combater.
Por outro lado, o ensino brasileiro padece de entraves crônicos, como deficiências estruturais nas escolas, falta de um sistema pedagógico eficaz e desvalorização da figura do professor. Ademais, não se constata a presença do papel libertador da educação, por meio da valorização das individualidades, consoante a teoria da professora Bell Hooks, que auxiliaria no transpassar das fronteiras étnicas, sociais e sexuais da sociedade. Desta feita, o indivíduo se evade e sucumbe à falta de interesse, à dupla jornada, à violência, à gravidez. Logo, o sujeito não se enxerga como agente ativo, em um processo que na maioria das vezes, determina sua marginalidade social.
É fundamental, portanto, que medidas sejam tomadas para resolução desse quadro. Assim, o Ministério da Educação juntamente com as escolas e os conselhos tutelares – principais atores desse processo – adotem a campanha “a escola em sua casa”, que estimule uma cultura de interação aluno/escola. Essa iniciativa aconteceria por meio de visitas periódicas de professores e conselheiros tutelares na casa dos alunos que deixaram de frequentar a escola, atuando no diagnóstico e resolução dos problemas sociais, de saúde e pedagógicos, visando à diminuição da evasão dessa população. Afim de que, finalmente, não haja somente slogans, mas sim, transformação efetiva, tanto do ambiente escolar, quanto da vida e do futuro dos que dele depende.