Evasão escolar e a realidade brasileira

Enviada em 03/09/2021

A obra da artista brasileira Tarsila do Amaral, “Abaporu”, retrata o corpo do ser humano de maneira desproporcional ao apresentá-lo com a cabeça consideravelmente menor em relação aos membros inferiores. Analogamente, a obra pode simbolizar a debilidade reflexiva que engloba o cenário da evasão escolar no Brasil, uma vez que esse quadro reflete a falta de desconforto social diante da problemática. Com isso, tanto o desemparo do Governo, quanto as intensas desigualdades socioeconômicas contribuem, de modo significativo, para a persistência desse entrave na realidade nacional.

Em primeira análise, cabe destacar o impacto da manutenção, por parte do Estado, de uma política que avança em passos letárgicos na permanência desse imbróglio. Conforme a teoria do “Monstro Macrocéfalo”, o filósofo Raymundo Faoro critica o excesso de normas em detrimento de ações do aparato administrativo. Nessa perspectiva, essa face materializa-se na conjuntura da comunidade verde-amarela na medida em que a carência infraestrutural dos ambientes de ensino, em conjunto com a falta de recursos pedagógicos, corroboram a evasão escolar. Desse modo, observa-se que os exíguos investimentos nesses espaços fomentam o desinteresse dos jovens no que diz respeito a aprendizagem.

Ademais, é imperativo pontuar o extenso abismo socioeconômico presente na sociedade tupiniquim como um dos fatores que validam o estorvo. Nesse sentido, a Revolução Industrial foi um fenômeno histórico que desencadeou diversos processos sociais, ao passo que, além de consolidar o sistema capitalista de exploração, também possibilitou o uso do trabalho infantil nas fábricas. Dessa maneira, na contemporaneidade, assim como no século XVIII, inúmeras crianças, com o intuito de ajudar a família financeiramente, são encontradas trabalhando e, como consequência, fora do ambiente escolar. Sob esse viés, é notório que a má distribuição de renda no país favorece, de forma direta, o abandono do ensino básico, em especial, pela parcela marginalizada da população.

Verifica-se, portanto, a necessidade de ações interventoras que minimizem esse grave panorama em todo território brasileiro. Para tanto, urge que o Ministério da Educação desenvolva projetos,  mediante à cessão de capital público aos órgãos competentes, de melhoria no sistema de aprendizado, com o fito de incentivar o acesso às instituições escolares por parte dos alunos e de deter o abandono educacional. Outrossim, é preciso que o Governo Federal, por meio de trâmites legais, promova práticas de estímulo a maior distribuição de renda no país, no intuito de assegurar o direito ao ensino e diminuir os índices de evasão. Destarte, será possível desconstruir a imagem pintada na obra “Abaporu”.