Evasão escolar e a realidade brasileira
Enviada em 14/10/2021
No documentário “Nunca Me Sonharam”, é retratada a sensível realidade presente no ensino médio das escolas públicas brasileiras. Nesse sentido, a trama explora uma das principais características de tal ensino: a evasão escolar. Hodiernamente, fora da ficção, muitos brasileiros, em razão do grande desinteresse por parte dos alunos e da desigualdade de oportunidades no tocante ao acesso colegial, enfrentam situação semelhante. Logo, são necessárias ações governamentais na contenção dessa grave adversidade que permeia a realidade do país: o abandono precoce da escola.
Em primeiro plano, é imperioso salientar que o desinteresse dos alunos pela estrutura educacional decorre, muitas vezes, da institucionalização de um ensino -exclusivamente- conteudista, o qual visa, apenas, o enfoque teórico sem aplicações cotidianas. Sob esse viés, o educador Paulo Freire, na obra “Pedagogia do Oprimido”, destaca a importância das escolas em fomentar não somente o ensino técnico-científico, mas também habilidades socioemocionais, como o respeito e a empatia. Entretanto, a aprendizagem convencional impede que, consoante a Freire, a educação represente um processo humano, o qual contribui de forma efetiva para a formação do cidadão. Destarte, torna-se imprescindível a qualificação dos professores tradicionais para um ensino de enfoque prático.
Ademais, é conveniente destacar que a desigualdade de oportunidades, marcada pela concentração de renda, tipifica um obstáculo à possibilidade de realização no âmbito acadêmico e profissional, o qual favorece o abandono da escola e, futuramente, o desemprego. Contrariamente a essa lógica, o artigo 225 da Carta Magna, conhecida como “Constituição Cidadã”, preceitua que a educação, direito de todos e dever do Estado, será promovida visando sua qualificação para o trabalho. Logo, ao observar a desigualdade do país, tal direito não é concretizado, haja vista que ao negar o acesso à educação, a qualidade de desenvolvimento do indivíduo é prejudicada e, por conta disso, empresas inseridas no mercado competitivo formal não irão adquirir essa mão de obra desqualificada. Desse forma, são imperativas mudanças acerca do cerne da questão do abandono escolar: a desigualdade social do país.
Portanto, a fim de estimular o interesse dos alunos pela escola urge que o Ministério da Educação, órgão responsável por preservar a qualidade de ensino, invista, por meio do treinamento de professores, no desenvolvimento de uma aprendizagem que aborde as particularidades de cada indivíduo e possibilite aplicações no cotidiano. Somado a isso, compete ao Ministério da Cidadania, cuja função é promover benefícios assistenciais, o combate à origem da problemática do abandono escolar: a desigualdade social. Somente assim, poder-se-á combater tal adversidade e contribuir para que o drama narrado em “Nunca Me Sonharam” seja, em breve, apenas ficção.