Evasão escolar e a realidade brasileira
Enviada em 12/11/2021
Em sua obra “O Cidadão de Papel”, o jornalista brasileiro Gilberto Dimenstein disserta sobre a ineficácia das leis presentes em documentos oficiais, de modo que as garantias sociais restringem-se à teoria. Dessa maneira, é possível afirmar que a avaliação de Dimenstein aplica-se à realidade brasileira, uma vez que o direito social à educação, embora seja atestado pela Constituição Federal de 1988, não é concretizado para todos os cidadãos. A evidência de que a evasão escolar ocorre com intensidade no contexto contemporâneo sustenta essa constatação. Assim, destaca-se a elevada pobreza no país e a falta de discussão sobre o abandono escolar como fatores que sustentam o atual cenário.
De início, é pertinente ressaltar que as dificuldades econômicas a que boa parte da população está submetida possui íntima relação com o fato de que uma grande quantidade de jovens não conclui seus estudos no país. Nesse contexto, o grupo musical Racionais MC’s, em sua produção artística “Sobrevivendo no Inferno”, expõe os desafios enfrentados por crianças e adolescentes moradores de regiões periféricas, os quais tendem a buscar fontes de renda desde a infância para ajudar seus pais, de maneira que sua dedicação aos estudos é restrita. Dessa forma, tendo em vista a extensa parcela da população que sobrevive com menos de um salário mínimo por mês no Brasil, não é surpreendente que parte considerável dos estudantes não completam o ensino fundamental, haja vista a necessidade de muitos jovens de conseguir recursos financeiros a curto prazo para si e sua família.
Ademais, a carente reflexão acerca da problemática contribui para sua manutenção. Nesse sentido, segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, a falta de questionamento moral é responsável pela banalidade do mal, isto é, pela normalização de situações prejudiciais a um grupo de indivíduos. Dessa maneira, o hábito precário de refletir quanto à evasão escolar e suas causas produz uma situação de alienação social diante de tal circunstância, de modo que a sociedade se cala diante da existência de uma quantidade expressiva de jovens que não completam seus estudos escolares e possuem, como resultado, prejuízos em sua formação socioeducacional.
Portanto, verifica-se a permanência de obstáculos estruturais no enfrentamento à evasão escolar no Brasil. Logo, cabe ao Governo Federal, em parceria com o Ministério da Educação, promover a reflexão coletiva a respeito do abandono escolar e os fatores sociais que o causam, por meio de palestras educativas a serem exibidas em lugares públicos – como praças, parques e escolas –, a fim de combater a banalização de tal problema na sociedade. Com isso, espera-se incentivar posturas questionadoras perante o frequente abandono dos estudos escolares, e, destarte, enfrentar esse nefasto cenário.