Experimentos científicos em debate no Brasil
Enviada em 08/10/2021
Título: Na pele do outro (estilo de correção: SSA/UPE (resumo do estilo: https://bit.ly/3ajLygP ))
No filme “A pele que habito”, um médico tem seu projeto desaprovado devido ao seu desejo de testar seus resultados em cobaias humanas. Tal exemplo da ficção abre espaço para questionar a opinião difundida na realidade que condena experimentos em humanos, mas aprova aqueles em outros animais. Portanto, torna-se necessário investigar essa falta de conscientização e o papel do especismo na falta de empatia interespecífica, que impede o humano de se colocar “na pele” de outros animais.
Mormente, é evidente que ainda há pouca conscientização social a respeito dos usos não-essenciais de animais de teste. Acerca disso, ainda é bastante difundida a ideia de que a exploração cosmética desses seres se resume ao uso da pele e dos pelos, popularizada por produções como “101 dálmatas”, da Disney. Entretanto, muitas espécies ainda são submetidas a experimentos de detecção de alergias e irritações causadas por maquiagens e afins, especialmente em países que, diferentemente de muitas UFs, não criminalizam essa prática. Dessa forma, é inviável esperar que o consumidor tenha memorizado quais nações são essas toda vez que pretenda importar algum cosmético e fica aparente a importância da intervenção estatal de forma a informar potenciais compradores sobre essas origens.
Outrossim, é preciso desmascarar, tanto por trás de tais usos não-essenciais quanto dos usos médicos, uma certa ideologia especista sobre essa exploração. A esse respeito, é possível traçar, desde Aristóteles, uma visão de que o homem é o “rei da natureza” e que, assim, tem poder sobre a vida ou a morte de outras espécies. De fato, o pensamento difundido é de que “é melhor testar neles do que nós”, numa implícita oposição entre populações humanas e não-humanas. No entanto, o “Homo sapiens” é apenas mais uma espécie dentre milhares, e a única que acha que é especial por ser “sapien”. Tal narcisismo é ainda agravado pela rotulação de muitas cobaias como “pragas”, o que inclui ratos e insetos, e contribui para a falta de sensibilidade de muitos quanto a essas criaturas.
Destarte, com a identificação do desconhecimento a respeito dos usos cosméticos e da ideologia por trás dos experimentos, apresentam-se duas intervenções sob responsabilidade do legislativo. Primeiro, por meio de um projeto de lei, deverá ser criado um selo para produtos importados de países que carecem da criminalização das cobaias não-humanas, de forma a dar maior poder de escolha aos consumidores. Por fim, mediante alteração da legislação já existente, haverá também a modificação da BNCC, visando a prever o debate acerca do especismo nas escolas e possibilitar que as futuras gerações consigam se colocar na pele de outros animais.