Fome e desigualdade social no século XXI

Enviada em 19/10/2020

O filme espanhol “O Poço” aborda a experiência vivenciada por Goreng, protagonista do drama, ao ser submetido a uma prisão, na qual as celas são distribuídas em níveis verticais. Diariamente, uma plataforma, com alimentos, desce do primeiro ao último nível. No entanto, a comida entregue não é suficiente para alimentar todos os detentos. Fora da ficção, inaceitavelmente, a fome e a desigualdade social, as quais são efeitos do advento da globalização, continuam presentes. Destarte, o problema é motivado tanto pela escravidão hierarquicamente enraizada, quanto pelo descaso coletivo.

Vale destacar, a princípio, a escravidão como promotora da problemática. Isso porque, de acordo com a Carta Magna da República, é garantida, pelo Estado, a inviolabilidade do direito à igualdade e à alimentação. Todavia, faz-se imprescindível destacar que determinados direitos constitucionais não são, de fato, assegurados a todos, uma vez que, em meados de 1800, a população negra foi escravizada por senhores de terras. Nessa perspectiva, mesmo que a Lei Áurea, de 1888, assegure a extinção da escravidão no Brasil, o povo negro foi deixado sem propriedade e, por consequência, sem maneiras de sustentar-se. Sendo assim, quase a totalidade de seus descendentes, atualmente, encontram-se em cenários desiguais, tanto no quesito social, quanto no que tange à alimentação.

Além disso, outra dificuldade enfrentada é o descaso coletivo. Nessa perspectiva, cabe ressaltar que grande parcela populacional age motivada por ideologias externas e, assim, restringe sua consciência individual. Destarte, mesmo o indivíduo que possui condições de auxiliar grupos vulneráveis, acaba por desprezar o contexto da discrepância social, e alega que essa desigualdade, sobretudo no sistema capitalista, é a base de sustentação da sociedade. Isso porque os indivíduos que estão em níveis econômicos inferiores auxiliam na permanência dos que estão acima. A exemplo disso, pode-se retomar a obra “O Poço”, posto que o desprezo da fome e, consequentemente, da morte alheia assegura a existência dos indivíduos das celas superiores. Nota-se, dessa maneira, a necessidade de mudanças nesse padrão de pensamento vigente.

Sendo assim, medidas são necessárias para alterar essa questão. Logo, o Governo Federal, em parceria com a iniciativa privada, deve, por meio da sanção de leis e do cumprimento delas por parte das empresas, assegurar a presença de indivíduos economicamente vulneráveis no mercado de trabalho, a fim de garantir com que determinados cidadãos possam, gradativamente, melhorar a sua condição social. Além disso, deve, por meio da constante destinação de verbas, preservar a permanência de centros de assistência social e de programas sociais, a fim de promover a diminuição de taxas de fome no Estado. À vista disso, o drama vivido por Goreng será apenas ficcional.