Fome e desigualdade social no século XXI
Enviada em 08/11/2020
A música “A novidade”, de Gilberto Gil, propõe um paradoxo em torno de uma sereia que aponta na praia: para os favorecidos economicamente, ela é motivo de contemplação, enquanto que para aqueles que vivem à margem da sociedade, a figura representa uma forma de saciar a fome. Outrossim, no Brasil do século corrente, tal paradoxo mantém-se presente levando em consideração os altos índices de desigualdade social no país, que acarretam na ampliação dos níveis de fome entre os habitantes. Dessa forma, o cerne de tal problemática encontra-se presente na má distribuição de renda e de terras, contribuindo para a existência de condições de vida desumanas para milhões de brasileiros.
Apesar da saída do Brasil do “Mapa da Fome” (indicador que acompanha a subalimentação em âmbito internacional) em 2014, é indubitável que a questão permanece presente no país atrelada à distribuição desigual da renda. Assim, com o poder monetário concentrado na mão de um grupo, milhões de brasileiros ficam a mercê da exploração e do subemprego, que não são suficientes para suprir necessidades básicas da maioria das famílias (incluindo a alimentícia). Essa relação é discutida por pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam que o aumento da concentração de renda em 2018 está diretamente associado às tendências exponenciais de crescimento da extrema pobreza no país.
Ademais, a questão latifundiária também potencializa problemas estruturais críticos, como a fome e a desigualdade, por meio dos altos índices de exportação de produtos (revelados pela Associação Brasileira de Consultoria em Comércio Exterior (ABRACOMEX), que aponta o Brasil como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo). Todavia, o lucro obtido com a exportação acaba ficando concentrado nas mãos de grandes latifundiários, enquanto que o preço dos bens de consumo disponíveis para a população aumenta, levando em consideração a necessidade de importar mercadorias, a fim de que o mercado interno seja abastecido. Logo, muitos brasileiros acabam não conseguindo arcar com tais custos, entrando nas estatísticas da fome.
Urge, portanto, a necessidade de que o Ministério da Economia atue a fim de reduzir a discrepância na disposição da renda, e os índices de subalimentação, por meio da criação do programa “Brasil sem Fome”, que vise a distribuição de uma renda mensal (voltada para a compra de cestas básicas) para aqueles em condição de extrema pobreza. Além disso, cabe ao Ministério da Agricultura promover uma reforma agrária no país, de modo que terras em desuso sejam ocupadas para a produção de alimentos que possam abastecer o mercado interno sob um menor custo para o povo. Por conseguinte, brasileiros terão garantido o direito da dignidade de vida, se distanciando do paradoxo proposto por Gilberto Gil.