Fome e desigualdade social no século XXI
Enviada em 10/11/2020
No capítulo “mudanças” da obra Vidas Secas do escritor alagoano Graciliano Ramos, o personagem Fabiano mata seu papagaio de estimação para servir de alimento a ele e sua família, evidenciando a insegurança alimentar de seu povo já naquela época. Fora da ficção, há uma realidade não muito diferente, com um cenário frequente tanto no Brasil, como no resto do mundo, uma vez que a fome e a desigualdade social caminham lado a lado no século em que vivemos. Nesse sentido, nota-se que há uma combinação de fatores os quais contribuem para a transposição da ficção para a vida real, e vale analisar as suas causas e consequências.
Em primeira análise, é perceptível que o problema da fome mundial não ocorre por uma possível falta de alimentos para todas as pessoas, já que há estudos que apontam que hoje em dia é produzido alimento suficiente para dez bilhões de pessoas. O filósofo argentino Enrique Dussel já dizia que a fome do oprimido é fruto de um sistema injusto. Logo, cabe destacar que há um problema na distribuição desse alimento que está relacionado à lógica do sistema capitalista que vivemos, uma vez que este não busca alimentar o máximo de pessoas possíveis, mas garantir um lucro máximo por meio da alimentação também. Por conseguinte, fica evidente que a fome e a desigualdade social se relacionam, pois uma só pode ser a causa ou consequência da outra. Em Julho de 2019, a FAO, organização das Nações Unidas, informou que 820 milhões de pessoas não tinham o suficiente para comer no ano de 2018, em contrapartida, a Oxfam, organização não governamental britânica, divulgou uma pesquisa onde mostra que os 1% mais rico do mundo detém cerca de 52% da riqueza mundial. No filme espanhol “O Poço”, é explorado, literalmente, a verticalidade social vivenciada hoje na representação de uma prisão vertical, na qual cada nível é uma classe social. Os prisioneiros confinados só podem se alimentar dos restos de comida do nível acima. Assim como fora da distopia, a ascensão social é descartada e esse cenário é passado de geração em geração.
Em síntese, torna-se claro que a fome e a desigualdade social no século XXI é um problema econômico e social. No Brasil, portanto, é mister que o Estado tome providências para solucionar esse problema, renovando programas que auxiliam na distribuição de renda e alimentos, como o Bolsa Família e Fome Zero, para que assim, mais pessoas tenham acesso a boa oportunidades de vida futuras. Somente assim o Brasil poderá mitigar os efeitos dessa problemática e cenas como a de Fabiano, em Vidas Secas, serão cada vez menos frequentes além da ficção.