Fome e desigualdade social no século XXI

Enviada em 05/11/2020

O escritor Ariano Suassuna já dizia que é muito custoso eliminar a injustiça secular que divide o Brasil em dois patamares: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos. Sob essa ótica, tal pensamento está longe de ser desfeito no Brasil, já que, no contexto atual, a fome e a desigualdade social são impasses inerentes à nação. Nessa perspectiva, fatores como a concentração de renda e a má distribuição de recursos públicos promovem a manutenção desse entrave.

Em primeira análise, é válido pontuar que as disparidades no que tange o acesso ao capital favorecem a perpetuação das mazelas sociais. Nesse sentido, a obra “Veias Abertas da América Latina”, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, aborda como as relações humanas desenvolvidas no período colonial, na América do Sul, interferiram no processo de formação cidadã dos atuais países que compõe esse continente. Sob esse viés, é perceptível que a composição histórica, baseada na estratificação de classes, intensificou a concentração de renda no Brasil, ex-colônia de exploração, comprometendo o desenvolvimento da sociedade, uma vez que somente uma pequena parcela dos brasileiros tem acesso a uma alimentação de qualidade e a outros direitos básicos devido ao poder aquisitivo. Dessa forma, é nítido que razões econômicas interferem em elementos sociais.

Em segunda análise, é importante esclarecer, também, que a má distribuição das verbas públicas é outra razão que intensifica a exclusão dos indivíduos do acesso a direitos básicos. Nesse viés, a Constituição brasileira de 1988 assegura várias garantias, das quais o acesso a uma alimentação de qualidade, ao lazer, à renda, à educação, entre outras. No entanto, o Estado é falho em gerenciar os fundos que poderiam ser disponibilizados na contenção da fome, no combate às desigualdades de renda e no investimento em infraestrutura nas regiões periféricas. Desse modo, há a perpetuação desse cenário de miséria tal qual foi retratado na obra “Vidas Secas”, do escritor Graciliano Ramos, em que os personagens Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos carecem de assistências mínimas.

A fome e a desigualdade social são, portanto, problemas que devem ser combatidos no Brasil. Por isso, é necessário que o Ministério da Cidadania, em conjunto com ONGs, crie um projeto nacional de combate à fome e às desigualdades sociais. Tal ação deve ser desenvolvida através da consolidação de planos já implantados, como o “Bolsa Família”, bem como ampliar a construção de restaurantes populares e a promoção das ações assistencialistas nas regiões periféricas. Isso pode ser assegurado com uma melhor administração das verbas do Estado, ao garantir repasses suficientes para a realização dos programas. Com o intuito de não só amenizar a concentração de renda existente, descrita por Galeano, mas também evitar situações como aquelas vivenciadas na obra “Vidas Secas”.