Fome e desigualdade social no século XXI

Enviada em 16/11/2020

“A fome não é um fenômeno natural. É um fenômeno social, produto de estruturas econômicas defeituosas”. Essa citação do livro “Geografia da fome” de Josué de Castro evidencia de modo bastante claro a difícil realidade de diversos brasileiros que diariamente convivem com a fome, em virtude da desigualdade social. Apesar do Brasil ser uma referência mundial no combate à subnutrição, recentemente o país retornou ao “Mapa Mundial da Fome” da Organização das Nações Unidas. Esse cenário paradoxal tem como causas principais a negligência governamental e os cortes nos programas sociais efetuados nos últimos anos. Dessa forma, são necessárias intervenções no âmbito social e econômico para que esse crítico contexto seja revertido.

É relevante abordar, primeiramente, que houve no Brasil um período de grave omissão estatal quanto a promoção de políticas públicas de amparo para frear a subnutrição, tendo essa postura reflexos na contemporaneidade, o que favorece, assim, a perpetuação da subalimentação. Acerca disso, é pertinente mencionar a obra literária “Quarto de despejo”, de Maria Carolina de Jesus, uma moradora da comunidade do Canindé, em São Paulo, na década de cinquenta, que retrata a vida da própria autora na luta contra a falta de alimento para alimentar a si mesma e a seus três filhos. Isso posto, observa-se que após cerca de quarenta anos da primeira publicação da obra, o país ainda apresenta um quadro bastante delicado em relação à temática, haja vista que mais de dez milhões de brasileiros sofrem, atualmente, com a fome, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além disso, é oportuno enfatizar que o Brasil deixou de compor o “Mapa Mundial da Fome”, sobretudo, por sua intensiva atuação, nos últimos anos, em projetos de fomento a autonomia econômica de famílias em situação de vulnerabilidade. Nessa lógica, o documentário “Histórias da Fome” salienta a grande contribuição de programas como o “Bolsa Família” na redução dos índices de subnutrição. No entanto, essa iniciativa sofreu significativos cortes, como revela a suspensão realizada pelo atual governo, em junho desse ano, de 83,9 milhões de reais do plano, o que pode impulsionar um agravamento da situação no país.