Fome e desigualdade social no século XXI

Enviada em 15/11/2020

Na obra “Vidas Secas”, do romancista Graciliano Ramos, é retratada a miséria nordestina, fruto da seca e penúria imposta pela influência social, representada pela exploração dos ricos proprietários do sertão nordestino. Fora da ficção e, no século XXI, o problema social e econômico da fome ainda persiste, atingindo mais de 5 milhões de brasileiros, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). Nessa perspectiva, cria-se a necessidade de analisar as relações intrínsecas entre a fome e as desigualdades sociais para que sejam desenvolvidas medidas resolutivas para essa questão.

A priori, cabe pontuar que a desigualdade social está atrelada ao modelo de produção e relações capitalistas. Segundo Karl Marx, economista e sociólogo clássico, o indivíduo pode fazer suas escolhas, mas as condições sociais são influenciadas pelas condições econômicas. Assim, a ascensão social é dificultada pela concentração de renda na mão de uma parcela mínima, que perpetua a exploração para se manter no poder e configurar a hierarquia social. Consequentemente, esse desequilíbrio colabora para a distribuição desigual dos alimentos, assim como contribui para o seu desperdício. Dessa maneira, a fome não se alicerça na escassez de alimentos, mas sim na inviabilidade financeira de muitos para acessá-los.

Segundamente, outro ponto relevante são as consequências que a privação alimentar continuada acarreta aos indivíduos jovens e adultos. Nesse viés, conforme o neurocirurgião Fernando Gomes, a fome gera prejuízos físicos e mentais, os quais afetam a cognição, prática laboral e acarretam no surgimento de diversas doenças. Por conseguinte, as pessoas submetidas costumeiramente à fome dificilmente conseguem ascender socialmente, em razão das limitações físicas e intelectuais, o que pode propiciar a perpetuação dessa condição. Ademais, o aumento da violência nos centros urbanos e rurais também pode ser um dos reflexos da problemática, já que, muitas vezes, para saciar a fome, da família, a prática de pequenos furtos apresenta-se como única alternativa para obtenção de alimento.

Infere-se, portanto, que medidas sejam tomadas para resolver esse impasse antigo e recorrente. O Ministério do Meio Ambiente e Agricultura deve oferecer subsídios para os pequenos produtores agrícolas, responsáveis pela produção de 70% dos alimentos básicos consumidos internamente no país, por meio da doação de maquinários, sementes e recursos para o plantio sustentável e produtivo. Outrossim, o Poder Público precisa renovar e inovar programas que auxiliam na distribuição de renda e alimentos, por meio da realocação de recursos da União, com o intuito de melhorar as condições socioeconômicas e garantir a todos seguridade alimentar. Somente assim será possível alterar a realidade das vidas secas dos milhares de retirantes nordestinos descritos por Graciliano.