Fome e desigualdade social no século XXI

Enviada em 12/03/2021

No livro “Capitães de Areia”, de Jorge Amado, é retratado um grupo de crianças de rua que comete pequenos delitos para sobreviver, sendo exposto a falta de alimento das crianças devido ao cenário de extrema pobreza que elas se encontravam. Fora da ficção tal conjuntura assemelha-se a um quadro de fome e desigualdade social visto ao redor do mundo, em que a forte concentração de renda deixa vítimas da fome como os Capitães de Areia. Com isso, não só a educação exclusiva deve ser superada para amenizar o vigente cenário, mas também a negligência pública.

Em primeira análise, é perceptível que a educação elitista tem contribuido para uma maior desigualdade social e, consequentemente, a permanência da fome. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, aquilo que foi criado como instrumento de democracia direta não deve ser convertido em mecanismo de opressão simbólica. Isto é, embora a educação ser fundamental para o desenvolvimento humano, a diferença qualitativa entre instituições de ensino público e privado aumenta paulatinamente, favorecendo a maior concentração de renda. Por analogia, a Revolução Industrial surge comprovando essa opressão simbólica, pois a falta de investimentos educacionais na camada pobre da população impedia que eles ascendessem economicamente. Desse modo, nota-se que a educação pouco inclusiva ainda é um desafio da fome e da desigualdade a ser vencido.

Em segundo plano, vê-se uma inércia por parte do Poder Público para erradicar a fome e atenuar os níveis de desigualdade social. De acordo com a Organização das Nações Unidas - ONU - dois entre os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável mundial são a erradicação da pobreza extrema e a fome zero. No entanto, segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, houve um aumento de quase 1% no nível de extrema pobreza entre 2012 e 2014. Isso configura-se, consoante Hannah Arendt, como a “banalização do mal”, em que, devido à constância da fome e da desigualdade social, essa problemática deixou de causar tanto impacto. Logo, é notório uma negligência governamental para o solucionamento do problema.

Torna-se, portanto, essencial que o Estado estabeleça medidas para amenizar o vigente cenário. Urge, pois, que as instituições de ensino mundiais obtenham melhorias no ensino gratuito - tais como a compra de mais livros e professores qualificados. Dessa forma, a ONU, juntamente aos órgãos de educação de cada nação, visará a redução gradativa da desigualdade social e da fome, por meio de verbas públicas. Somente assim, a realidade distanciar-se-á da retratada em “Capitães de Areia”, de Jorge Amado.