Fome e desigualdade social no século XXI

Enviada em 26/05/2021

O poema “O bicho”, do escritor brasileiro Manuel Bandeira, narra de maneira sublime um ato corriqueiro e normalizado cotidianamente, em que um indivíduo, em razão da fome, busca comida diretamente do lixo, sendo assim, comparado a um bicho. Analogamente, a história contada pelo autor é a realidade de inúmeros indivíduos brasileiros que padecem diariamente pela ausência de quesitos básicos para a sobrevivência, como a alimentação, vítimas da desigualdade social. Nesse contexto, fatores, como os direitos negligenciados e a má distribuição devem ser analisados.

Sob tal ótica, é fulcral pontuar sobre a Constituição Federal de 1988. De acordo com a norma de maior hierarquia jurídica do país, em seu artigo 6º, é dever do Estado assegurar o direito à alimentação aos cidadãos, visto que todos são iguais perante a lei . Contudo, o ato constitucional difere na prática, já que, parte significativa da população se encontra em situação de vulnerabilidade socioeconômica e, consequentemente, sente dificuldades para se alimentar, segundo a pesquisa realizada pelo Datafolha, em que um a cada quatro brasileiros não possuem recursos para colocar comida na mesa. Desse modo, depreende-se que o Estado, hodiernamente, não cumpre sua função referente ao combate à pobreza e a favor à integração social dos setores desfavorecidos, num contexto devastador e vergonhoso.

Além disso, cabe citar o cenário da Revolução Verde e o seu impacto na temática da fome. Tal Revolução, ocorrida a partir da década de 1960, refere-se à invenção e à disseminação de novas sementes e práticas agrícolas que permitiram um vasto aumento na produção agrícola. No entanto, embora haja suprimento suficiente para abastecer e alimentar todas as famílias brasileiras, levando em consideração o alto PIB brasileiro e as novas tecnologias, cerca de 25% da população vive na linha de pobreza, cuja renda é insuficiente para atender as necessidades básicas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), panorama que fere os direitos humanos e constitucionais.        Portanto, medidas são necessárias para atenuar a problemática. Urge que o Poder Público renove programas que auxilie a população quanto à distribuição de renda e à alimentação, por meio do Bolsa Família e Fome Zero, usando o Censo do IBGE como alicerce para conhecimento das dificuldades financeiras e acerca da insegurança alimentar dos indivíduos, a fim de garantir meios de sobrevivência básica, permitindo melhor qualidade vida, como uma boa alimentação e oportunidades em dedicar tempo em atividades educativas e empregatícias. Por certo, pequenos desafios serão superados no que concerne à segurança alimentar e a realidade do poema “O bicho” estará presente apenas na literatura.