Fome e desigualdade social no século XXI
Enviada em 29/10/2021
No livro “O Quinze”, da autora modernista Rachel de Queiroz, é relatada a jornada de uma família de retirantes que, durante seu trajeto em direção a Fortaleza, precisa se alimentar das vísceras de uma cabra, as quais foram rejeitadas pelo dono do animal. Fora da ficção, a realidade da fome, ligada diretamente à desigualdade, ainda configura um grande problema social brasileiro, gerado principalmente pela deficiência na distribuição de alimentos e pela lógica monocultora de cultivo. Dessa forma, faz-se necessário discutir sobre esses pontos para que soluções pertinentes sejam alcançadas.
Em primeira instância, é importante ressaltar que a má distribuição de comida é, infelizmente, um dos maiores motivos para a persistência da fome. Segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), 98% das 795 milhões de pessoas que sofrem com a escassez de alimentos no mundo vive em países em desenvolvimento, com destaque para o do Sudeste da Ásia e a África Subsaariana. Dessa forma, pode-se concluir que mesmo com a produção de alimentos sendo suficiente para suprir a demanda, a disponibilidade se concentra em regiões desenvolvidas, enquanto pessoas que vivem em Estados periféricos, os quais já passam por outros problemas sociais, precisam lidar, ainda, com a fome, o que somente aumenta o abismo social entre estes e os países centrais.
Ademais, é relevante pontuar que a predominância de latifúndios monocultores é uma agravante da problemática. Esse fator foi acentuado pela criação da Lei de Terras, a qual deu título de propriedade àqueles que já ocupavam e produziam nas terras brasileiras – em sua maioria grandes latifundiários – e, ainda, proibiu a aquisição de lotes do Estado sem ser pela compra, a qual impunha preços altos que não podiam ser pagados por pequenos proprietários e ex-escravizados. Fica visível, então, que a concentração de um maior contingente de terras nas mãos de poucos está marcada no processo de formação brasileiro e acaba, de forma lamentável, privilegiando descendentes de uma elite colonial que produzem comida sob uma lógica monocultora e voltada ao comércio exterior e que, muitas vezes, não é destinada à alimentação básica da população e mantém a marginalização de pequenos agricultores.
Portanto, medidas devem ser tomadas para que a fome e a desigualdade social sejam superadas. Para isso, o Ministério do Desenvolvimento Social, responsável por políticas de assistência, deve reestruturar programas sociais que auxiliam a distribuição de renda, por meio de pesquisas nas áreas mais afetadas pela fome, a fim de proporcionar a diminuição das desigualdades sociais. Além disso, o INCRA (Instituto Nacional de Colonização de Reforma Agrária) precisa colocar em prática, efetivamente, a reforma agrária prevista na Constituição, com intuito de diminuir a concentração fundiária e incentivar a agricultura familiar, a qual é base de alimentação da população.