Gamificação: o futuro do processo educativo?

Enviada em 05/11/2022

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo sexto, garante o acesso à educação e o define como dever do Estado. Nesses 30 anos, desde a promulgação da Carta Magma, as dinâmicas sociais e educacionais em muito se alteraram com o advento das novas tecnologias. Prova disso é a gamificação da educação que apresenta riscos ao processo educacional. Diante desse contexto, é necessário analisar os perigos desse novo modelo, seja pela perda do senso crítico dos estudantes, seja pela lógica competitiva capitalista.

De início, a gamificação do processo educacional estimula a tecnicidade e a falta de consciência. Segundo o educador brasileiro Paulo Freire, a educação deve ser libertadora, ou seja, não pode ser tratada como um mero depósito conteudista, mas sim uma ferramenta de expansão do senso crítico e de entendimento do mundo. Todavia, ao transformar a educação em jogos, com fases e objetivos definidos, induz no aluno uma visão sistemática de que, para superar determinados obstáculos, deve utilizar sempre os mesmos métodos. Desse modo, essa nova visão do processo educacional limita ideias diferentes, dado que só há uma maneira de avançar de fase.

Ademais, a gamificação é uma construção capitalista que insere na educação uma visão competitiva que não deveria existir. Consoante o sociólogo Karl Marx, o capitalismo tem como pilar a competição entre sujeitos. Nesse sentido, as relações sociais só valorizam o vencedor e todos os indivíduos tornam-se adversários. Todavia, essa concepção contraria a verdadeira função do processo educacional que é formar indivíduos conscientes de si e das relações ao seu redor. Dessa forma, essa dinâmica transforma colegas em oponentes e fere a sociabilidade.

Depreende-se, portanto, que a gamificação do processo educacional não deve ser estimulado como novo sistema educativo. À vista disso, é dever do Ministério da Educação — órgão responsável pelas diretrizes educacionais nacionais — atuar para coibir a expansão de tal modelo. Isso pode ser feito por meio da alteração da Base Curricular Nacional impedindo que disciplinas possam ser “gamificadas”, a fim de que a educação continue a perseguir seu objetivo libertador e não seja transformada em um produto capitalista.