Geração narcisista: um pedido de socorro ou um ato de reafirmação?

Enviada em 10/09/2022

Contraste. Século passado: fluxo de imagens lento, feito por periódicos impressos, televisão ou álbuns de família. Hodierno: instantâneo, principalmente, pela internet. Neste último contexto, pode-se dizer que o narcisismo de uma geração inteira tornou-se acentuado e que tal característica, problematica e contraditoriamente, mais se assemelha a um pedido de socorro do que a uma forma de reafirmação. E há dois principais motivos, interligados, para isso: a necessidade de aceitação e a modificação das mídias imagéticas, constantes.

Em primeiro plano, o ser humano é um ente social e, por isso, sempre sentiu a necessidade de ser aceito. A título de ilustração, o livro “Extraordinário”, de R. J. Palácio, narra a história de Auggie, um menino fora do padrão considerado “comum” de aparência e que, por essa causa, sofre dificuldade de enturmação na escola. Fora da ficção, a realidade do protagonista, mesmo que seja em diferentes níveis e situações, assola a individualidade. Assim, ser narcisista, em última instância, é um pedido desesperado para viver em grupo, nesse caso, uma união ocasionada pela uniformidade visual física, superficial.

Em segundo plano, é evidente que as águas nas quais Narciso se admirava não tinham filtros embelezadores, diferentemente das redes de hoje (como “Instagram” e “TikTok”), tampouco ele usava maquiagem. Dessa maneira, o ato de exaltar a própria aparência e demais qualidades, tronou-se uma exaltação falsa, em razão de haver mudanças nas imagens pelas quais a própria pessoa se observa, sejam essas alterações causadas por efeitos digitais ou por cosméticos. Portanto, mais uma vez, o narcisismo exacerbado é desmascarado e apresenta-se como um “grito de socorro” para a necessidade de adequação, ou, pelo menos, para a impressão de que se é adequado a algo.

Dessarte, é basilar que a sociedade, paulatinamente, por meio da mudança nos hábitos de postagem de fotos e vídeos (os quais devem passar a ser mais naturais e, logo, “imperfeitos”), promova uma maior aceitação do outro para, assim, aceitar melhor a si, sem a necessidade de se gabar. Espera, com esse aumento da consciência coletiva que, aos poucos, os “Auggies” da vida real não mais precisem se esconder por serem vítimas do narcisismo alheio.