Gestão de resíduos na sociedade brasileira

Enviada em 30/04/2026

Na obra “Vidas Secas”, Graciliano Ramos expõe a invisibilidade de grupos marginalizados. Essa lógica persiste no Brasil do século XXI: o país gera 80 milhões de toneladas de resíduos por ano, mas recicla só 4%, segundo a Abrelpe. Tal cenário revela que a gestão de resíduos é prejudicada pela cultura do consumo excessivo e pela falha do Estado em cumprir políticas públicas. Assim, é urgente discutir o hiperconsumo e a exclusão dos catadores como entraves para a sustentabilidade.

Inicialmente, o modelo econômico estimula o descarte. O sociólogo Zygmunt Bauman, em “Vida para Consumo”, afirma que a sociedade moderna define cidadãos pelo ato de comprar e descartar. No Brasil, a obsolescência programada, denunciada no documentário “The Light Bulb Conspiracy”, acelera esse ciclo. Produtos feitos para durar pouco lotam lixões como o da Estrutural, no DF, que simbolizou o colapso sanitário por décadas. Dessa forma, o lucro empresarial se sustenta às custas do meio ambiente e da saúde pública.

Além disso, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, não é aplicada de forma eficaz. A lei prevê logística reversa e fim dos lixões, mas mais de 60% dos municípios não têm coleta seletiva. Nesse contexto, os catadores, responsáveis por 90% da reciclagem segundo seu Movimento Nacional, trabalham sem direitos e invisíveis, cenário que remete à obra de Graciliano. A ausência de educação ambiental nas escolas perpetua o problema, pois o cidadão não é formado para entender seu papel na cadeia do lixo.

Logo, para mudar essa realidade, o Ministério do Meio Ambiente deve criar o programa “Escola Sustentável” junto ao MEC, incluindo educação ambiental no currículo e financiando cooperativas de catadores para atuarem como agentes educativos nas comunidades. A iniciativa deve ser divulgada em mídias digitais e o Congresso precisa fiscalizar empresas que descumpram a logística reversa. Com isso, o lixo deixará de ser reflexo do descaso e se tornará matéria-prima para um futuro sustentável, como já defendia Platão ao relacionar a cidade à alma dos cidadãos.