Gestão de resíduos na sociedade brasileira

Enviada em 05/05/2026

O documentário brasileiro “Ilha das Flores”, retrata de forma ácida a trajetória de um tomate, desde sua colheita até o descarte em um lixão em Porto Alegre. A obra evidencia a hierarquia perversa da sociedade de consumo, onde seres humanos em situação de vulnerabilidade disputam restos de alimentos com animais. Fora das telas, a realidade brasileira contemporânea ecoa essa denúncia: a gestão de resíduos sólidos é negligenciada, refletindo tanto a ineficiência estatal quanto uma cultura de descarte desenfreado. Nesse contexto, é urgente analisar como o descaso governamental e a invisibilidade social dos resíduos impedem o desenvolvimento sustentável do país.

O Brasil tem uma boa legislação sobre resíduos sólidos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), criada em 2010. Contudo, sua implementação é lenta. Dados mostram que milhões de toneladas de lixo vão para lixões todos os anos, com prazos de erradicação frequentemente adiados pelo Congresso. Isso prejudica o meio ambiente, contaminando solo e água, além de gerar gastos públicos desnecessários com remediação em vez de investir em reciclagem. A situação é piorada pela visão cultural de que o lixo desaparece ao sair de casa. Segundo Zygmunt Bauman, essa sociedade de consumo gera muito “refugo”, refletido na baixa coleta seletiva e na desvalorização dos catadores, que, apesar de reciclarem a maior parte do lixo, vivem em condições difíceis e sem reconhecimento.

Portanto, medidas são necessárias para reverter o cenário exposto em “Ilha das Flores”. O Ministério do Meio Ambiente, em parceria com as prefeituras municipais, deve garantir o cumprimento da PNRS por meio da substituição definitiva dos lixões por aterros sanitários controlados e da implementação de usinas de compostagem e reciclagem. Paralelamente, o Ministério da Educação deve promover a conscientização ambiental nas escolas, incentivando a prática dos “5 Rs”, visando formar cidadãos críticos sobre seus hábitos de consumo. Por fim, o Governo Federal deve criar incentivos fiscais para empresas que usem logística reversa e formalizar a contratação de cooperativas de catadores, garantindo equipamentos e direitos trabalhistas. Isso pode transformar o lixo em um pilar da economia circular e ética no Brasil.