Gravidez na adolescência em evidência no Brasil
Enviada em 31/10/2019
Ciclo da vida
O filme estadunidense Juno narra a história da adolescente, de mesmo nome, que engravida aos 16 anos de seu companheiro da escola. Apesar de considerar realizar um aborto, ela decide manter a gravidez e entregar a criança para adoção - sob pena de viver transformações físicas e psicológicas em seu corpo e o preconceito inerente à situação -, pois não tem condições de criá-la. Fora da ficção, esse cenário se mostra muito próximo da realidade de jovens brasileiras, com pouco conhecimento sobre concepção e métodos preventivos, pois são conduzidas a uma delicada conjectura de maternidade precoce que, via de regra, reflete em prejuízos por toda a vida.
Em primeira análise, é indiscutível a abordagem deficiente da educação sexual nas escolas do Brasil, fruto de uma visão conservadora e equivocada do tema como um incentivo à atividade sexual prematuramente. Diante disso, os jovens iniciam a vida sexual de forma imprudente, sem noções básicas de prevenção à gravidez e doenças ou com dificuldades em negociar o uso de preservativos. Isso se confirma com os dados da Organização Mundial da Saúde, de 2018, que registrou a taxa de 68,4 nascimentos para cada mil adolescentes no país. Logo, para reduzir esses números, é imprescindível oferecer orientação sexual adequada aos jovens, principalmente nas instituições de ensino.
Em segunda análise, as consequências de engravidar tão cedo são gravíssimas para mãe, filho e sociedade. A priori, do ponto de vista da saúde, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), uma gestação antecipada tende a ser mais suscetível a problemas como anemia, parto prematuro, infecções, depressão pós-parto, entre outros. A posteriori, da perspectiva socioeconômica, as implicações também são preocupantes, haja visto que, muitas vezes, as parturientes são obrigadas a abandonar os estudos, tornam-se dependentes de parceiros ou familiares e, por conseguinte, têm as oportunidades de trabalho estreitadas, o que dificulta a conquista de melhores trabalhos e deixar a situação de vulnerabilidade em que vivem.
Urge, portanto, direcionar esforços no sentido de transformar esse cenário para atenuar os impactos da gravidez precoce e mudar o destino das meninas brasileiras. Cabe ao Legislativo garantir o acesso de jovens à orientação sexual adequada mediante proposta de lei para instituir a obrigatoriedade do ensino de disciplinas voltadas para a educação social, em que sejam ensinados cuidados com o corpo e formas de lidar com a sexualidade de maneira consciente e segura. Assim, espera-se que o dilema enfrentado por Juno e tantas meninas brasileiras possa ser mitigado.