Gravidez na adolescência em evidência no Brasil

Enviada em 24/11/2020

Na obra " Clara dos Anjos", do autor Lima Barreto, é retratada a condição de uma ingênua jovem -chamada Clara - que é persuadida por Cassi Jones, um homem com fama sedutora. Nesse sentido, a obra retrata a trajetória da adolescente que, cega pelo amor, é seduzida por Cassi e -consequentemente - fica grávida dele. De maneira análoga a história fictícia, é lícito afirmar que a denúncia presente na obra de Barreto envolve diversas questões pertinentes à gravidez precoce na adolescência e a consequente situação de desamparo das mães, que são cenários ainda presenciados na atualidade brasileira. Diante dessa perspectiva, cabe avaliar os fatores que favorecem esse quadro, além do papel das instituições sociais para a mudança dessa questão.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), as regiões Norte e Nordeste são as que possuem maiores casos de gravidez entre meninas de 10 à 19 anos. Fica evidente, dessa maneira, a intrínseca relação entre desenvolvimento regional e gravidez precoce, já que os estados ainda enfrentam dificuldades relacionadas à taxa de escolaridade, renda e saúde. Diante do exposto, é visível a influência do determinismo geográfico nessas relações de cadeia causais. Desse modo, ações governamentais são substanciais para a alteração do quadro.

Outro ponto relevante nessa temática é conceito de modernidade líquida do filósofo Zygmunt Bauman, que explica a queda das atitudes éticas pela fluidez de valores, a fim de atender o pessoal, reforçando o individualismo. Desse modo, ao relacionar o conceito de Bauman à gravidez na adolescência, fica evidente a queda da responsabilidade e do compromisso de muitos jovens, que imersos na condição líquida, consideram a gravidez como um problema indesejado e possuem medo de partilhar sua descoberta com a família ou com o companheiro. Assim,  podem surgir complicações na gravidez resultantes de um pré-natal tardio, colocando em risco a saúde da mãe e do feto.

Portanto, fica evidente que medidas devem ser criadas para a alteração do cenário vigente. Nesse âmbito, cabe ao Ministério da Saúde promover à implementação obrigatória da educação sexual em instituições de ensino, como escolas, com o fito de instruir e preparar crianças e adolescentes para a vida sexual de forma segura, enfatizando - dessa maneira - o empoderamento das escolhas individuais sobre o próprio corpo e as consequências de decisões indesejadas, como gravidez precoce ou a contração de doenças. Só assim, a situação presenciada por  Clara deixará de ser a realidade de muitas meninas brasileiras e poderá promover uma reflexão em toda sociedade brasileira.