Gravidez na adolescência em evidência no Brasil

Enviada em 08/05/2021

Na obra “A garota no trem”, é narrada os problemas psicossociais de uma mulher que se tornou enferma após uma gravidez indesejada na adolescência, que acarretou na sua expulsão de casa e, posteriormente, na morte de sua filha. Fora da ficção, a vida imita à arte e faz-se reflexo na sociedade brasileira: a gestação precoce é um dos principais fatores para o subdesenvolvimento social dos jovens. Nesse sentido, é lícito afirmar que a postura do Estado em relação à educação preventiva e a negligência e censura dessa questão no núcleo familiar contribuem para a perpetuação desse cenário negativo.

Mormente, evidencia-se, por parte do Estado, a ausência de um plano instrucional educacional suficientemente efetivo para que ocorra a educação e preparação dos jovens para a vida adulta. Tal cenário reforça a ideia da teórica Vera Maria Candau, que afirma que o sistema educacional está preso nos moldes do século XIX e não oferece propostas significativas para as inquietudes hodiernas. Desse modo, a omissão de assuntos na Base Comum Curricular socialmente relevantes como a educação sexual e métodos contraceptivos corroboram para a manutenção de altos índices de gestações juvenis e infecções sexualmente transmissíveis, que, consequentemente, afetam os recém-nascidos.

Outrossim, apresenta-se relevante a compreensão de que uma parcela massiva das famílias brasileiras trata os assuntos da sexualidade e maternidade como tabus e, constantemente, negligenciam e censuram o tema. Nesse contexto, a família torna-se uma Instituição Zumbi - conceito desenvolvido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman -, uma vez que mantém sua forma, mas perdeu sua função social, que deveria ser a instrução e preparação dos indivíduos em desenvolvimento. Nessa lógica, o aprendizado que deveria ser efetuado pela família e pelo Estado fica por responsabilidade do próprio jovem, que, na maioria das vezes, não tem autonomia suficiente para alcançá-lo. Dificultando, assim, a compreensão dos problemas trazidos por uma vida sexual desprevenida e as consequências da concepção de um filho na adolescência que ecoarão por toda sua vida adulta.

Logo, percebe-se que a sociedade precisa ser instruída a respeito desses tópicos imprescindíveis para a formação dos indivíduos. Posto isso, cabe ao Ministério da Educação, juntamente ao Ministério da Saúde, promover a inserção desses conteúdos na grade disciplinar dos estudantes, de forma natural, mediante alterações na Base Comum Curricular, a fim de garantir que os adolescentes possam ter autonomia nas decisões referentes a sua vida sexual e tratem o assunto de forma normal, tornando, assim, as futuras famílias um local seguro para o debate do tema. Dessa forma, situações como a da obra “A garota no trem” não mais representarão a sociedade brasileira.