Gravidez na adolescência em evidência no Brasil

Enviada em 13/09/2021

Em “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago desenvolve uma narrativa trágica centrada na crítica ao estado de irreflexão da sociedade pós-moderna, por intermédio de uma epifânica cegueira que acomete os indivíduos do meio social. Ao considerar tal sintoma para fundamentar a discussão sobre a gravidez na adolescência, vê-se que o corpo social hodierno desenvolveu uma cegueira moral ao não refletir sobre a persistência desse problema. Nesse sentido, cabe analisar de que forma a vulnerabilidade social é um entrave, bem como refletir sobre a necessidade de educação sexual no país.

A priori, é preciso reconhecer que, no cenário brasileiro, a vulnerabilidade social e a pobreza extrema são realidades evidentes. Nessa perspectiva, atesta-se a percepção de Saramago, posto que a sociedade tornou-se cega ao não refletir sobre a relação entre a condição socioeconômica e a incidência de gravidez na adolescência. Há, evidentemente, a partir disso, muitas adolescentes residentes de regiões periféricas que estão vulneráveis a ocorrência da gravidez precoce, devido a baixa escolaridade, que restringe o acesso a informação, e a maior incidência de violência sexual sem denúncia nessas regiões. Dessa forma, há grande número de mulheres que precisam abandonar a adolescência e a juventude em prol de gerar uma criança.

Outrossim, é válido ressaltar que, devido a questões culturais e conservadoras brasileiras, o sexo, que é considerado um tabu, não é amplamente discutido na adolescência. Sob essa ótica, ganha voz a percepção do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na obra “O mal estar da pós-modernidade”, ao discorrer sobre as chamadas “instituições zumbis”, organismos sociais que, embora importantes, perderam, com o tempo, a forma. À luz dessa ideia, torna-se notório que o Estado tornou-se uma instituição zumbi, visto que não investiu em educação sexual para os adolescentes de todo o território nacional. Logo, vê-se que, com a naturalização desse tabu e sem a devida instrução sobre métodos contraceptivos, há a persistência de adolescentes que engravidam precocemente.

Diante disso, é preciso concentrar esforços em solucionar esse impasse. Inicialmente, cabe ao Ministério do Desenvolvimento a tarefa de intensificar programas sociais como o Bolsa Família, a partir de novas análises das condições socioeconômicas dos brasileiros residentes em periferia, visando diminuir a vulnerabilidade social. De modo complementar, o Ministério da Educação, órgão responsável pela formação do cidadão, deve inserir a educação sexual nas escolas do país, por meio de seminários e debates, com vistas a conscientizar os indivíduos acerca da vida sexual. Espera-se que, com ações desse tipo, finde-se a cegueira da razão.