Habilidades e competências para as profissões do futuro
Enviada em 17/08/2020
“Youtuber”. Essa é a resposta que grande partes das crianças tem, hoje, na ponta da língua, para responder à pergunta sobre o que querem “ser quando crescer”. Apesar de influenciada por modismos, de certa forma essa resposta parece mais plausível do que a antiga, “astronauta”, pois a maior parte das profissões do futuro terão relação com a tecnologia. No entanto, apesar dessa perspectiva parecer promissora, é possível afirmar que a necessidade de aprender a aprender, imperativa no mercado de trabalho das próximas décadas, e a intima relação com a tecnologia, que ela exige, tendem a aumentar as desigualdades entre classes sociais.
Em primeiro lugar, é importante que se tenha consciência que o mercado de trabalho do futuro será muito diferente do atual. As transformações que a chamada quarta revolução, a da informática, está causando na produção implica no desaparecimento de profissões atuais e no surgimento de especializações que talvez sequer tenhamos consciência hoje. Por esse motivo, autores como Perrenault defendem a necessidade das escolas “ensinarem a aprender”, com o foco competências, pois isso criaria cidadãos mais hábeis em lidar com as mudanças, que serão tantas.
Entretanto, há muitos aspectos que tendem a aprofundar as desigualdades sociais. Um deles é que a informatização da sociedade ainda não é para todos. Dados do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR mostram a que maioria dos alunos de escola pública não têm acesso a computadores em casa. Assim, a exclusão digital tende a ser um problema grave num futuro mercado em que profissões braçais tendem a serem extintas. Além disso, a própria ideia de “aprender a aprender” camufla, segundo Demerval Saviani, a necessidade de conhecimentos sólidos, que dariam sustento a essa plasticidade. Assim, o ensino voltado para competências tenderia a ser pouco efetivo para a classe trabalhadora, que necessitaria de conteúdos específicos, que lhes seriam negados, para só então aprenderem a “aprender”.
Portanto, para resolver os problemas apresentados, é importante que o sistema educacional seja, ao mesmo tempo, alinhado com as demandas futuras, mas também efetivo no ensino dos conhecimentos de base. Para isso, o Ministério da Educação deveria melhorar substancialmente as escolas públicas. Faria isso garantindo uma máximo de 20 alunos por sala, atraindo os melhores profissionais com planos de carreira promissores, formando bons professores em universidades públicas e garantido informatização de todas as escolas de forma efetiva. Essas mudanças podem soar ultrapassadas, de tão conhecidas que já são, mas é apenas com elas que seria possível preparar para o futuro sem ampliar as desigualdades do presente.