Homofobia em questão no Brasil
Enviada em 23/05/2018
“E assim consumou-se o delito contra a natureza”. Essas foram as palavras tecidas em “O Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha, para descrever um relacionamento homossexual entre um marinheiro e um escravo. Nesse trecho, o autor evidencia a construção social negativa dos homoafetivos, ao colocá-los como aberrações, uma imperfeição da natureza. Diferentemente, nos tempos hodiernos, mediante uma postura de resistência, essa minoria conquistou espaço e direitos na sociedade, no entanto coexistem preconceitos explícitos e implícitos que os prejudicam. Desse modo, visando uma sociedade mais justa, isso deve ser combatido e superado.
Para se compreender esse complexo quadro, é necessário o entendimento acerca da construção histórica sociocultural dos homossexuais. Nesse viés, o contexto social presente no período da segunda guerra mundial revela muito bem a conjuntura, na qual os homoafetivos constituíam um dos grupos perseguidos pelo regime nazista. Essa intolerância era embasada na ideologia nazi, a qual utilizava como argumento a impossibilidade de reprodução. Em paralelo à realidade atual, muitos indivíduos, sobretudo os mais idosos, empregam o mesmo raciocínio para mostrarem-se contra a efetivação de legislações que visam garantir direitos social da minoria homoafetiva. A exemplo disso, o casamento entre pessoas de mesmo sexo que demorou a vigorar no país. Portanto, é possível concluir que a homofobia não é uma invenção contemporânea, mas sim uma visão excludente enraizada que deve ser desconstruída.
Outrossim, esse panorama é severamente agravado pela reprodução discursiva dessa discriminação que se materializa e falas preconceituosas e se cristaliza em suas repetições nas interações sociais. Nesse sentido, expressões como “viado”, “bicha”, “boiola”, compõem pejorativamente uma representação social negativa dos homoafetivos. Ditas constantemente, elas reforçam o preconceito social contra essa minoria, que pode ser explicado pelo pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu, com ênfase no conceito de habitus. Para o estudioso, em sociedade, são assimilados visões e modos de vida, pelas agências, como mídia e escola. Dessa forma, torna-se indubitável a importância dessas instâncias, sobretudo no que tange o combate à homofobia.
Diante desse cenário, medidas são imprescindíveis a fim de atenuá-lo. Para tanto, o Ministério de Educação e Cultura (MEC) deve realizar campanhas conscientizadoras nas escolas, com a finalidade de promover uma ideologia de menos preconceito. Tal ação pode ser realizada por meio de atividades lúdicas, a exemplo de oficinas extras na grade de horários dos estudantes, que estimulem o debate e o pensamento crítico. Ademais, a sociedade civil deve promover ações, seja por ONGS ou atos individuais que desincentivem a homofobia. Assim, o trecho de “O Bom Crioulo” não será mais realidade no Brasil.