Impactos da escassez da água no século XXI

Enviada em 01/11/2018

Na obra modernista “Vidas Secas”, o autor Graciliano Ramos narra a difícil trajetória de uma família pelo semiárido brasileiro em busca de água. Na contemporaneidade, tal qual na peça ficcional, um enorme contingente de pessoas sente os impactos da escassez de recursos hídricos. Essa violação na garantia do direito ao acesso à água se deve, em muito, pela falta de planejamento do uso desse bem tão vital. Nesse sentido, um diálogo entre sociedade, indústria e Estado sobre os meios para superar essa problemática é medida que se impõe.

Em primeiro plano, a falta de água afeta primeiro - e com mais rigor - as populações que vivem em locais de menor desenvolvimento econômico e social. O sertão nordestino, a exemplo, é historicamente menos assistido por políticas que buscam democratizar a rede hídrica, aliado a um deficit natural devido a questões geomorfológicas, tornam a região extremamente suscetível a mazelas relacionadas a falta desse recurso. Dessa maneira, além da sede, a deficiência desse líquido acarreta em doenças adquiridas ao consumir a água de fontes duvidosas, a fome trazida pela impossibilidade em manter plantações e animais etc. A partir disso, percebe-se que a premissa do filósofo italiano Bobbio de que a dignidade é intrínseca ao homem não é respeitada e nem garantida por agentes estatais.

Outro aspecto a ser abordado, é a grande dependência hídrica da economia brasileira para a geração de energia com as hidrelétricas e o uso extensivo no agronegócio. Este utiliza 70% da água que  é consumida no país - dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, enquanto aquele é responsável por mover grande parte do aparato industrial da nação. Tal fato pode acarretar sérios problemas econômicos em longo prazo, uma vez que não é de praxe um planejamento de uso de recursos no Brasil. Ainda mais, a alcunha de reservatório mundial de água revela-se um revés ao induzir uma falsa sensação de segurança, porém suscetivos anos de seca, inclusive no sudeste, devem servir de alerta para o fato de que o Brasil não está a salvo desse problema.

Urge, portanto, que todos os segmentos sociais unam-se com o fito de mitigar os impactos da escassez de água. Para isso, é pertinente ao cidadão exigir o cumprimento do direito garantido de acesso à água, ao mesmo tempo, cobrar do governo, por meio de seus representantes eleitos, uma fiscalização mais efusiva do agronegócio por conta do uso exacerbado desse recurso. Ao Estado, por sua vez, cabe a promoção da universalização da água através de programas de transposição de rios, tratamento da água e implantação de redes de saneamento básico. Ademais, cumpre ao governo fomentar o uso de fontes energéticas alternativas para emancipar-se da dependência das hidrelétricas, garantindo, assim, um futuro econômico e social saudável.