Impactos da escassez da água no século XXI

Enviada em 30/04/2019

No seu livro “Vidas Secas”, Graciliano Ramos descreve, no século XX, o cotidiano das populações residentes no semiárido brasileiro, região essa caracterizada pela escassez de água devido a diversos fatores geográficos e políticos. Por outro lado, no século vigente, a escassez de água tem adquirido caráter ainda mais abrangente, atingindo localidades antes tidas como pontos de alta taxa pluviométrica e, devido à falta de consciência social e de uma ação mais incisiva do Estado visando atenuar esses problemas, tem-se a perpetuação e o agravamento de impactos em vários setores da sociedade.

A priori, é imperativo pontuar que o atual cenário comercial brasileiro está condicionado à lógica capitalista de consumo em massa. Esse comportamento, por sua vez, aumenta o consumo hídrico já que a população carece, no aspecto da consciência coletiva, da disponibilidade e da busca por informações acerca da chamada “água virtual”, que é a água consumida na produção de outros elementos como, por exemplo, carnes e roupas. Logo, pode-se listar como uma das consequências mais graves propiciadas pela escassez de água e já observada em alguns locais é a estagnação econômica e redução da taxa de empregabilidade da população, dificultando o acesso dessa à elementos inerentes à vida e elementos supérfluos responsáveis pela garantia de uma melhor qualidade de vida.

Ademais, é relevante abordar, que, além dos comuns impactos associados a esse problema tais como a falta de água imprópria para o consumo, a crise hídrica apresenta-se como ameaça à cidadania e, em um aspecto mais amplo, à democracia. Acerca disso, podemos destacar, sob um ponto de vista histórico, que recursos escassos têm forte tendência a serem alvos de disputas e, em um futuro onde a água estaria inclusa nesse grupo, urge a possibilidade do advento de guerras civis generalizadas ou uma nova corrida imperialista. Destarte, configura-se como inaceitável que o Brasil, país signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos e detentor de uma das maiores reservas de água do mundo, não se estabeleça como vanguarda no quesito combate à crise hídrica.

Infere-se, portanto, que a atenuação dos empecilhos, atuais e passíveis de ocorrer em um futuro próximo, não se apresenta como uma tarefa fácil, mas torna-se-á a partir de uma ação mais efetiva do Estado. Dessa forma, no Brasil, a Agência Nacional de Águas(ANA) deve, em parceria com o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária(CONAR), incentivar, através de subsídios no ICMS —imposto com fatia destinada a preservação ambiental — destinados à empresas com alto consumo hídrico, a redução desse consumo e a disponibilização de dados acerca dele nas embalagens dos produtos visando fomentar a difusão de uma consciência em prol da preservação dos recursos hídricos.