Impactos da escassez da água no século XXI

Enviada em 09/05/2019

A obra “Os Retirantes”, de Cândido Portinari, retrata um grupo migratório fugindo da seca nordestina na década de 40. De maneira análoga, tal pintura serve de exemplo para ilustrar a escassez hídrica atual, visto que, segundo relatórios do Banco Mundial, mais da metade da população brasileira não tem acesso a água potável, assim como os migrantes da obra expressionista. Nessa conjuntura, cabe analisar os fatores agravantes dessa crise no Brasil, dentre eles o desperdício inconsciente pela indústria e o desmatamento.

Em princípio, é importante compreender como o desperdício industrial afeta essa problemática. Sob esse viés, o volume de água usado em produtos e serviços, chamado de “água virtual”, é responsável por fazer do Brasil o 5º maior exportador mundial desse recurso, segundo a Folha de São Paulo. Esse volume, desconhecido pela maioria da população, é usado pelas empresas dentro da lógica capitalista, principalmente as do agronegócio, e ameaça os 12% de água doce disponíveis em todo o território nacional. Ainda nesse raciocínio, justamente pelo país possuir grande potencial hídrico, cria-se um mito em que a água é um recurso infinito e, que, por isso, pode ser usado em abundância.

Ademais, é notório que o desmatamento interfere de modo negativo para a escassez hídrica. Nessa ótica, dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia permitem afirmar que cerca de 63% do bioma Cerrado foi desflorestado nos últimos anos, por consequência da expansão pecuarista. Tal pesquisa mostra que falta consciência ambiental no país em relação a retirada de vegetação, especialmente das matas ciliares. Além de favorecer o assoreamento dos rios, lagos e córregos, essa prática também colabora para a poluição destes, pois esse tipo de vegetação circundante funciona como um “filtro” biológico. Sem as matas, essa filtração não é possível e compromete a qualidade hídrica destes mananciais.

Fica evidente, portanto, que o mau uso e a desarborização auxiliam a crise hídrica no país. Para que esse quadro seja atenuado, convém, em primeiro lugar, que as secretarias municipais e estaduais estabeleçam uma média mensal para o uso de água em cada uma das indústrias que a utiliza, multando aquelas que excederem essa média estipulada. Com finalidade de diminuir o desmatamento, deve continuar em vigor a política de reflorestação obrigatória para aqueles que desmatam, conforme o Código Florestal, juntamente com o investimento em satélites e recursos aéreos para mapear as áreas desmatadas e fiscaliza-las. Assim, os impactos da escassez hídrica no país poderão ser mitigados e retirantes como os de Portinari deixarão de existir na realidade contemporânea.