Impactos da escassez da água no século XXI

Enviada em 04/06/2019

O romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicado na década de 1930, trata sobre a miséria de uma família de retirantes no nordeste e mostra o sofrimento desses personagens agravado pela falta de água. Embora esse seja um contexto ficcional, a realidade não se afasta tão intensamente dele, visto que a escassez de água é um problema efetivo no século XXI e seus impactos são igualmente drásticos. Essa mazela tem sido fomentada por um uso irresponsável e desigual do bem mais precioso da Terra, fazendo-se necessária uma maior discussão sobre o assunto.

É importante analisar, a princípio, a concentração do consumo desse recurso na forma não direta, destacando-se o conceito de “água virtual”. Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, cerca de 72% da água consumida no Brasil está na agropecuária, o que mostra um uso extremamente desproporcional desse bem, além de outros processos produtivos que esse “âmbito” abrange como produção de roupas, sapatos, eletrônicos, entre outros. Tal situação deixa claro que a desigualdade social se mostra até mesmo no consumo de água, visto que os menos favorecidos economicamente têm acesso a uma parte ínfima desses produtos e ainda são prejudicados pela falta desse recurso no dia a dia, já que tão grande parte dele é direcionada para essa minoria dominante.

Outrossim, deve-se destacar a falta de valorização e consciência de muitos em relação à disponibilidade da água. Já na antiguidade, o filósofo pré-socrático Tales de Mileto considerava a água a substância primordial que constituía a essência do universo. Hoje, distantes de tal enaltecimento, muitos dos que têm acesso a esse recurso usam-no de forma negligente, o que pode ser presenciado na poluição dos rios, no desperdício do dia a dia, na contaminação dos lençóis freáticos com o uso de agrotóxicos e no consumismo crescente na sociedade. Com isso, a falta de água atinge um número cada vez maior de pessoas e irá afetar a saúde, a produção de energia, alimentação e, consequentemente, a qualidade de vida da população.

Portanto, medidas para controlar a escassez de água e evitar tais impactos são primordiais. Projetos de reutilização de água através do tratamento de esgoto pode ser um primeiro passo importante contra o desperdício desse bem natural cada vez mais raro. Essa ação deve ser liderada pelas Prefeituras Municipais, com o apoio das mídias, que devem aprimorar e ampliar tais redes por meio de um maior investimento nessa área. Além disso, o Governo deve promover uma redistribuição do recurso de forma que seu consumo excessivo pela agropecuária seja direcionado para os grupos que já sofrem com a sua falta. Assim, a miséria vivida pela família da obra modernista poderá se afastar definitivamente do mundo real.